A luta do século: Ali x Foreman

Segue abaixo pequena resenha que fiz sobre o livro “A Luta”, do Norman Mailer. Vale a pena assistir a luta completa. Está disponível no YouTube. O quinto round é simplesmente sensacional. Começa aqui – os outros rounds você pega naquela coluna do lado direito.

Em 1974, no Zaire, Muhammad Ali e George Foreman contracenaram uma luta épica, considerada no mundo do boxe como “a luta do século”. Se, por um lado, Foreman defendia o título e vinha numa trajetória impressionante e até era tido como favorito nas bancas de apostas, o falastrão e arrogante Ali ainda era visto como o grande campeão.

Em “A Luta”, Norman Mailer narra o clima dos bastidores e o combate. De início, já é uma grande tentação dizer que os estilos de Mailer e Ali se parecem bastante. Ambos são técnicos ao extremo e gostam de se exibir.

Mailer se coloca no texto como personagem e, ainda por cima, em terceira pessoa. E Ali ficou famoso por seu estilo sempre muito técnico e seus arroubos exibicionistas.

“A Luta” é muito mais do que uma narrativa sobre a luta. Mailer descreve todo o clima dos bastidores, acompanha os treinos dos lutadores, o espírito de cada um, as entrevistas pós-treino, as impressões dos treinadores. A reportagem é considerada como uma das melhores já feitas sobre o mundo esportivo.

O modo como Ali treinava era peculiar. Era como se treinasse para apanhar, para resistir e assimilar socos mais depressa do que outros lutadores, anota Mailer, pois sabia que Foreman tinha a mão pesada (embora, nas entrevistas, Ali sempre dissesse o contrário). Mailer: “Ali estudava todo o tempo como amortecer tais choques ou como castigar a luva que o transmitia, sempre elaborando sua compreensão íntima de como neutralizar, enfraquecer, modificar, enganar, encurvar, desviar, distorcer, defletir, inclinar e cancelar as bombas atiradas contra ele, e fazê-lo com um mínimo de movimentos, deitado nas cordas, as mãos erguidas, languidamente.”

O treino de Foreman era o de sempre: golpear até dizer chega. Socar sacos de areia e sparrings durante horas, sem cansar. A impressão que se tinha, narra Mailer, era que Foreman iria demolir Ali, numa luta rápida. Muitos diziam até que Ali poderia sair morto do combate, tal a força dos golpes de Foreman. Mailer, que torcia francamente por Ali, tinha medo que isso de fato acontecesse. E não era por menos – Foreman vinha simplesmente trucidando adversários e impondo respeito dentro do mundo do boxe.

O clima das entrevistas pós-treino é largamente descrito. Ali sempre fulminando Foreman e fazendo o teatro que a imprensa esperava dele. Já Foreman era o oposto. Dava poucas entrevistas, era mais contido, não gostava de polemizar.

A luta mesmo, propriamente dita, só é narrada por Mailer passados mais de dois terços do livro. E quando a luta chega, Mailer narra-a com maestria e minúcia. Lê-se daí para frente com frio na barriga e ansiedade tremendas, mesmo sabendo-se que Ali vence a luta por nocaute no oitavo assalto. Mailer descreve cada golpe executado, cada suspiro, cada descanso entre assaltos, cada frase que Ali dizia para Foreman durante a luta. Faz metáforas, dança pra lá e pra cá. Em suma, Mailer exibe todo seu talento como escritor.

Sobre o primeiro assalto, por exemplo, ele diz: “Furioso, Foreman fez carga. Ali agravou o insulto. Agarrou o Campeão pelo pescoço e empurrou sua cabeça para baixo, manejou-a brusca e decisivamente, para mostrar a Foreman que ele era consideravelmente mais ríspido do que qualquer um tivesse informado, e com isso as relações começaram. Circularam-se outra vez. Fintaram-se. Avançaram um contra o outro para recuar em seguida. Era como se cada qual tivesse uma arma na mão. Se um atirasse e errasse, o outro decerto acertaria. Se um lançasse um soco e o oponente estivesse atento, a cabeça do primeiro é que levaria o golpe. Que choque! É como segurar um cabo de alta tensão. De repente, está-se no chão.”

Embora grande estilista, Mailer falha em alguns pontos. Falta ao livro dados biográficos oportunos. O fato de Ali ter perdido o título por ter se negado a lutar na Guerra do Vietnã, por exemplo, quase não é explorado – e olha que Ali ficou um tempo preso por isso. A fase que Foreman vivia, destruindo adversários, também não é salientada. Fica-se com a impressão que o autor quis romantizar demais a luta e Ali, tido como o maior pugilista de todos os tempos. Tanto é que o próprio Mailer diz, em certo ponto, não conhecer muito bem Foreman. Mas talvez isso seja o de menos. Quem ler “A Luta” nunca vai esquecer das belas descrições que Mailer faz.

(Em julho de 2007)

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