Cuba

Emir Sader escreve na Folha deste sábado, 5 de agosto: “É o regime socialista que permite a Cuba ser o único país no mundo em que não há pessoas abandonadas, sem direitos, sem amparo, sem apoio. Em que não há crianças dormindo nas ruas.”

Pelo que sei, há prostituição em Cuba, bem como há pobreza também. Em quantidade menor do que em países como o Brasil? Talvez sim. Mas Cuba certamente é um país pobre, que até bem pouco tempo vivia a custa de subsídios da União Soviética. Fidel Castro parece nunca ter se preocupado em fazer com que seu país produzisse riquezas.

Nomes como Frei Betto, Fernando Morais e até José Dirceu reverenciam o regime castrista, como se Cuba fosse o paraíso na Terra.

Tendo a desconfiar de textos como o de Sader, embora reconheça que há alguma verdade ali (mesmo que mínima). Sader com certeza esteve em Cuba. E com certeza esteve lá convidado pelo governo, com mordomias que os habitantes locais com toda a certeza não têm acesso.

Quando se quer falar bem de Cuba, alguns elementos são logo abordados: saúde, educação, habitação. Mas no quesito “direitos” há um sério problema. Cuba não é uma democracia. Fidel comanda uma ditadura socialista fechada há 47 anos. Logo, as pessoas não têm direito à liberdade de expressão e escolhas. Geralmente quando isto é dito, muitos fecham a cara, e murmuram algo como: “Bom, mas o povo tem saúde, educação…”

Daniel Piza, que esteve em Cuba, diz: “A velha alegação de que Cuba ao menos distribui saúde e educação para todos não bate com a realidade que vi, e ninguém lúcido acredita nas estatísticas oficiais.”

O problema de boa parte das análises, na minha opinião, é que elas contrapõem modelos completamente diferentes – e modelos que têm falhas, e muitas. Quando analistas dizem que os EUA têm liberdade de expressão, isto é uma verdade, sabemos disso (Michael Moore e Noam Chomsky também sabem).

Já em Cuba essa liberdade não existe – de voto, de imprensa, de escolhas –; portanto, como acreditar, ou melhor, como não duvidar de partidários e do governo cubano? Como não duvidar de um ditador que proíbe obras literárias dentro do país? Como não duvidar de quem proíbe oposição e críticas? Que faz presos políticos? Que taxa como desertor quem quer sair do país?

Acho um pouco de covardia quando alguém diz que o modelo de Fidel não deve ser criticado por ser uma “oposição ao regime capitalista”. Democracia e liberdade de escolha são coisas fundamentais, são a base de uma sociedade, se me permitam o lugar comum. Não me sentiria bem em viver num país como Cuba, e aposto que a maioria dos que a defendem não agüentariam viver por lá mais do que umas férias.

Daniel Piza: “O país é dividido: de um lado, o país dos pesos cubanos, de carteirinhas mensais de remédios e alimentos que não dão nem para uma quinzena; do outro, o país dos dólares americanos, de prostitutas que se oferecem para os turistas a US$ 3 a cada esquina.”

Transição: o que quer o povo cubano?
Algumas coisas chamaram bastante a atenção na tal transferência de poderes. Primeiro: o apego ao poder. Fidel, aos 79 anos, esperou ficar seriamente doente para transferir seus poderes. Segundo: o traço monarquista da coisa. O poder foi passado ao irmão Raúl Castro, de 75 anos. Terceiro ponto: Fidel transferiu todos os seus poderes “provisoriamente”. É algo cômico a carta em que ele delega seus poderes. Começa sempre assim: “Delego em caráter provisório minhas funções como…”. No original, provisório deve ter sido escrito em caixa alta, negrito, itálico e com néon piscando…

Não seria mais fácil lançar um plebiscito, e perguntar diretamente aos cubanos que modelo eles querem, a partir de agora, seguir? Dois terços da população nasceu durante o regime. Mas a pergunta que se faz é: o que os cubanos querem? Enquanto ditadores acharem que o melhor para o “seu” povo é o que ele quer, nunca saberemos.

(Em julho de 2006)

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