E o meu voto vai para…

Há certos dados que, mesmo verdadeiros, mas colocados fora de contexto, tornam-se extremamente mentirosos, ou pelo menos muito tendenciosos. Estou falando de política e, mais uma vez, do governo Lula.

Pois bem: o governo tenta cravar alguns dados em sua propaganda como se fossem exclusivamente seus. É o famoso “nunca antes na história deste país”.

Os dados referentes à economia são os mais judiados. Lula se vangloria de dizer que a economia vai muito bem (só se for para os banqueiros ou para quem já tem muita grana), mas o país cresce na mesma taxa do governo de FHC. Só que o governo FHC tem o trunfo de ter elaborado o Plano Real (duramente criticado pelos petistas) e ter arrumado minimamente a economia, acabando com o “fantasma da inflação” e fazendo com que o Brasil ganhasse mais confiança no mercado financeiro.

O contexto internacional é extremamente favorável ao governo Lula; o governo FHC atravessou pelos menos duas grandes crises (russa e asiática). Mas ambos os governos criticam o que fazem, o que torna a crítica surreal: aumentaram a carga tributária e mantiveram uma política de juros altos. Em algum momento do governo tucano, os juros chegaram a incríveis 40%. (Um detalhe: fica impossível classificar estes governos como “neoliberais”.)

Os bancos devem estar extremamente gratos ao governo Lula, que lhes deu mais lucro em três anos do que em 8 do governo FHC. De seis em seis meses, já nos acostumamos a ver as notícias: “Bradesco bate recorde histórico de lucro” ou “Itaú bate recorde histórico de lucro”.

Se no governo Lula a economia se mostra estável e o risco-país atingiu o patamar mais baixo da história, é porque Lula simplesmente manteve a mesma linha do governo anterior; fazendo o contrário do que pregava, aliás. Até o presidente do Banco Central veio dos quadros do PSDB.

Se a inflação se mostra estável, é a mesma coisa. Se as dívidas foram sendo pagas, idem. Se há superávit na balança comercial, idem. Se as exportações crescem exponencialmente, um trabalho foi feito lá atrás antes; e continua sendo feito agora, ressalte-se, pra não dizer que eu só falo mal. Ou alguém acha que nestes assuntos as coisas acontecem do dia pra noite, bastando alguém dizer “vamos acabar com a inflação, pagar as dívidas, ter superávit, exportar adoidado como nunca antes na história deste país”? É até cansativo eu ficar dizendo isso.

Há de se lembrar também que PT e Lula foram radicalmente contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que prevê limites para gastos de prefeituras e punição para quem não cumprir. Antes desta lei, era ano eleitoral chegando e prefeitinho gastando os tubos pra se reeleger ou fazer seu sucessor.

E o reconhecimento da China como “economia de mercado”, que quebrou muitas pequenas empresas têxteis brasileiras? (A China tem umas das piores condições de trabalho e direitos trabalhistas do mundo e remunera muito mal seus funcionários; vem daí os preços extremamente baixos de seus produtos.) E o dispositivo que deixa livre empresas estrangeiras de pagar alguns impostos, enquanto as brasileiras continuando pagando? Lula que fez.

A Petrobras foi outra usada propagandísticamente. “Somos auto-sustentáveis em petróleo”. Que nada. O Brasil ainda importa cerca de 15% do petróleo consumido internamente. O país seria auto-sustentável se a Petrobras parasse de exportar. Além disso, os dados mostram que o governo Lula investiu menos na estatal do que o governo anterior.

Com relação à saúde, o que vejo é o seguinte: quem depende de hospitais públicos, está ferrado. É claro que no governo FHC houve algum avanço, como no caso do combate à AIDS e na criação dos genéricos, mas ainda assim é pouco, muito pouco. A infra-estrutura é extremamente precária. Lula chegou a dizer que a saúde beirava a “perfeição” no Brasil. Não sei de onde ele tirou isso.

Uma grande crítica que se faz ao governo tucano diz respeito às privatizações. Na época, pensava de um jeito; hoje, penso de outra forma. As privatizações podem ter sido mal feitas, mas tinham que ser feitas. Grandes estatais induzem, por si só, à corrupção. E no Brasil, com os políticos que temos, isso se torna ainda pior. Quem não se lembra do Roberto Jefferson dizendo que Furnas era uma boquinha e tanto?

Com relação à privatização das estradas em São Paulo, tenho certeza absoluta de que se o Brasil inteiro adotasse o mesmo modelo, todos sairiam ganhando. Quem é empresário e depende das estradas vive reclamando das perdas que têm pelas más condições: quebra e sucateamento da frota de caminhões (o que encarece o frete), atrasos nas entregas, produtos estragados pelo atraso, os assaltos ficam mais fáceis etc. Já viajei o Nordeste inteiro de carro, e a grande maioria das estradas é uma bosta mesmo.

Alguém poderia contra-argumentar: mas e se o governo fizesse o papel da concessionária, que cobra os pedágios e fica responsável pela manutenção? Acredito que isso em pequena escala funcionaria, mas no todo não. Talvez um modelo misto fosse o ideal.

Com relação ao combate à pobreza. Concordo que programas como o Bolsa Família devam existir. Cristovam Buarque, quando estava no PT, surgiu com a idéia e a colocou em prática no Distrito Federal. Pelo que sei, Magalhães Teixeira (PSDB) fez a mesma coisa em Campinas. O governo FHC também adotou o programa. Lula englobou os programas sociais do governo passado e deu um novo nome: Bolsa Família. E tenta dizer que antes dele não havia nada. É mentira.

Contudo, deve-se aplaudir o fato de que o governo atual tenha aumentado o valor repassado. Mas ao mesmo tempo retirou o principal dispositivo do programa, que era a contrapartida exigida: a de que a família deveria manter os filhos na escola. Com isso, o que se cria é uma dependência e uma perigosa conexão populista. Se Lula quer melhorar a vida dos pobres, deveria dizer: “Façam seus filhos estudarem!” E investir muito em educação básica. O que ele faz? Fica dizendo que nunca estudou na vida e que agora é presidente da República. As coisas não são assim. Quem nasce miserável corre grandes chances de continuar miserável a vida inteira. E não virar presidente da República. Lula tem um pensamento torto. O que se esperava é que o governo criasse condições desse pobre miserável prosperar, e não ficar dependente do dinheirinho todo mês.

E há o ProUni, programa do governo federal que reserva vagas em faculdades privadas para a população de baixa renda, negros e indígenas. Faculdade não é lugar para se fazer isso. Além do perigo de ampliar a discriminação e colocar pessoas menos preparadas, o governo fica dando dinheiro pra um monte de faculdades picaretas espalhadas pelo Brasil. Além de dar dinheiro (o governo paga a bolsa do aluno), dá uma série de benefícios, como Imposto de Renda, CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), PIS (Programa de Integração Social) e Cofins (Contribuição para o Programa de Integração Social). O correto seria investir em educação básica e dar condições dos pobres progredirem e conseguirem as coisas por si sós. Ou não? (O engraçado é que, na área cultural, o Ministério da Cultura chegou a cogitar a exigência de “contrapartida social” nos filmes que o Ministério apoiasse financeiramente. Bizarro.)

E a política externa? Como já estou me alongando muito, só vou citar o caso de Evo Morales, que montou em cima do governo brasileiro, passou por cima da Petrobras (enfiando exército no meio e o escambau) e agora quer desapropriar tudo o que a Petrobras fez por lá em 10 anos. O que governo fez? Nada, ou muito pouco. Foi molenga até onde deu. Só endureceu, ainda que muito leve, quando foi pressionado.

E ainda há, é claro, a corrupção e a desfaçatez dos petistas depois da principal crise do governo Lula, a crise do mensalão. Pra algumas pessoas, isso tudo é complô das elites, golpe branco, preconceito contra o presidente. E Lula não sabia de nada. Dizem que ele não foi ao debate porque não sabia, também. Coitado.

Quando não dava mais pra negar a corrupção, começaram a rifar os “companheiros”: Zé Dirceu, Silvio “Land Rover” Pereira, Delúbio Soares… O último a ser limado foi Hamilton Lacerda, assessor de Aloízio Mercadante, cuja candidatura negociou com os Vedoin dossiê contra José Serra. Mercadante, é claro, também não sabia de nada. E o Planalto fez o que pode para tentar esconder a dinheirama apreendida pela Polícia Federal.

Quando não dava pra negar os desvios, a desculpa sempre era: “Eles também roubaram.” Eles, os tucanos. Mas e daí? Isso é desculpa pra roubar também? É como se um ladrão dissesse: “Ei, mas roubo sempre existiu… os ladrões antigos também roubaram. Porque eu não posso?”

O PT adotou a política do enfiar a “mão na merda”. E ai de quem criticar – são todos golpistas de direita, fazem parte da elite preconceituosa que não aceita um presidente operário no poder.

Em que pese tudo isso, e eu poderia ficar aqui escrevendo durante horas e horas, voto amanhã em Alckmin. Esse governo não pode continuar impune a fazer as barbaridades que vem fazendo. Uma alternância agora é fundamental para o país.

UPDATE: Uma boa notícia. Ibope e Datafolha mostram que existem chances de um segundo turno ocorrer. Menos mal.

(Em setembro de 2006)

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