Índio quer apito

A coisa que mais chamou a atenção nessa história da nacionalização do gás na Bolívia foi o fato de o presidente Evo Morales ter usado o Exército para fazer alarde. E isso porque a Petrobras já havia sinalizado que estava disposta a negociar com a Bolívia um novo contrato de exploração, alguns meses atrás.

Ou seja, o governo brasileiro não oferecia resistências ao processo que Morales queria instaurar no país. Mesmo assim, falou mais alto a veia nacionalista e populista do indígena Morales. Preferiu chutar o pau da barraca e apostar na sua imagem de defensor de uma suposta soberania do povo boliviano.

Aí o presidente Lula diz que deve reagir não com dureza, mas sim com “carinho”, e aproveita para comparar a invasão dos EUA ao Iraque – disse algo do tipo “Querem que eu invada a Bolívia como fez os EUA no Iraque?” Óbvio que não, presidente Lula. Santa ingenuidade. Lula, além de não saber de nada, não tem o mínimo tato diplomático, assim como seu “hermano” Morales, que já vai enfiando o Exército na parada (é sintomático que líderes que criticam tanto o uso militar não percam a oportunidade de usá-lo no momento que não devem). Ninguém está pedindo guerra, apenas uma reação digna de quem teve uma estatal invadida e expropriada. Em outras palavras: roubada. Se o governo brasileiro continuar reagindo assim, Morales vai continuar falando grosso. Esperar pra ver.

A Petrobas investe na Bolívia há 10 anos. Investiu vários milhões (bilhões?) de dólares, deu emprego, responde por 15% do PIB do país, chegou a trabalhar dois anos com prejuízo etc. Ou seja, a estatal brasileira não é nenhuma criminosa, que mereça ser invadida pelo Exército nacional boliviano. Se a Petrobrás sair da Bolívia, o país literalmente vai à bancarrota.

Ou Morales quer uma guerra, ou é bronco (assim como Bush, que ele tanto critica), ou não tem nenhum tato diplomático, ou quer usar o fato como puro marketing. Bom, todas as opções trazem um pouco de verdade. Morales usou a nacionalização como peça eleitoral.

E Lula fala em “soberania boliviana”, “vamos respeitar o povo pobre da Bolívia”… A Bolívia vai “nacionalizar” (expropriar, roubar, escolha a palavra que lhe convir) toda a infra-estrura da Petrobras e Lula não vai dar um pio. Vai aceitar tudo numa boa falando em “paz na América Latina”. Que belo presidente temos.

E falando em camaradinha, o camaradão Hugo Chávez, presidente da Venezuela, foi o mentor de Morales, que disse, aliás, que se a Petrobras quisesse picar a mula, a PDVSA, estatal venezuelana de petróleo, estaria pronta para entrar em seu lugar. Isso diz muita coisa sobre os dois – algo sobre honra, amizade, respeito.

Não sei o que Lula está pensando, mas eu estaria muito irritado com Morales e Chávez. Muito mais do que quebrar contratos comerciais entre países, os dois o traíram, o desrespeitaram. O “Jornal da Globo” chegou a dizer que Lula só se referia a Morales com palavrões; verdade ou mentira, o certo é que, publicamente, nem um ai. Uma pena.

O engraçado disto tudo é que a estatal brasileira foi, até agora, a única nacionalizada. Morales diz que pretende continuar a nacionalização, agora na área da mineração. A Apex Silver, a maior empresa que atua nesta área, não será nacionalizada. Um dos ministros de Morales disse que não pensa sequer em nacionalizá-la, disse que apenas conversará para discutir um novo contrato. Detalhe: a Apex Silver é norte-americana. Isso diz muita coisa sobre a política externa brasileira.

(Publicado em maio de 2006)

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