Jornalismo participativo

Tenho um sério problema com o jornalismo gonzo. A impressão que eu tenho é de que o narrador, em primeira pessoa, como é próprio do estilo, quer ficar toda hora falando “Ei, olha só, leitor, como eu sou legal e batuta!”.

Em boa parte das matérias do tipo que leio, o infeliz está lá, querendo se exibir, fazendo malabarismo a torto e a direito. Isso me irrita, quase sempre.

Há quem faça isso de um jeito bonito? Há, claro que há; mas não me vem à cabeça nenhum nome agora.

Enquanto penso nisto, me vem à cabeça dois nomes: Gay Talese e Otavio Frias Filho. Talese se colocou no final do estupendo “A Mulher do Próximo”, mas, com muita classe e elegância, em terceira pessoa. O resultado é primoroso.

Frias, em “Queda Livre”, narra em primeira pessoa sete situações “limites”, no que ele preferiu chamar de “descidas até os círculos do inferno pessoal” (saltou de para-quedas, foi à selva amazônica atrás do Santo Daime, fez o Caminho de Santiago, frequentou casas de swing etc.). Neste caso, o fator “primeira pessoa” não atrapalha, já que o trabalho de pesquisa e a contextualização histórica são pontos fortes.

(Em setembro de 2006)

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