Pinochet, um criminoso

Augusto Pinochet, o ex-ditador do Chile morto semana passada, ao falar sobre a ditadura que governou de 1973 a 1990, disse que seus atos não tinham outro propósito senão o de engrandecer o Chile e salvá-lo do comunismo. Em entrevistas recentes, Pinochet se dizia um “democrata”.

Pinochet deu um golpe de estado no dia 11 de setembro de 1973. Na tomada, ordenou o bombardeio e o cerco ao Palácio de La Moneda, rendido após três horas de combate. No Palácio, estava o então presidente Salvador Allende, encontrado morto. A versão oficial diz que ele cometeu suicídio.

Assim que tomou o poder, Pinochet dissolveu o Congresso, colocou os partidos políticos na clandestinidade e restringiu os direitos civis. Mandou matar, torturou, censurou e perseguiu opositores. Era acusado também de ter sido um dos líderes da Operação Condor, rede de seis ditaduras da América Latina que perseguia e matava opositores. Estima-se em três mil o número de pessoas que foram mortas e em 30 mil o número de torturados durante a ditadura chilena.

Em 1980, Pinochet propôs um referendo (possivelmente fraudado), onde a maioria do povo chileno escolheu pela sua permanência. Em 1988, em novo referendo, o povo escolheu por eleições (com mais de 53% dos votos) livres, realizadas em 1989. Pinochet saiu do governo em 1990, embora tenha feito parte do comando do Exército até 1998, quando se tornou senador vitalício.

De 2004 pra cá, Pinochet também carregou o peso de ter sido corrupto. Cerca de 27 milhões de dólares foram encontrados em contas abertas em paraísos fiscais.

Entre militares, diz-se que ele salvou o Chile do comunismo e que o Chile vivia um momento tenso, de violência política e que Salvador Allende fora eleito com apenas 36% dos votos válidos (não sendo, portanto, “legítimo”). Os generais diziam que Allende faria um governo autoritário e comunista. Outra crítica é que, no tempo em que ficou no poder (1970-1973), Allende destruiu a economia e quis passar por cima de liberdades civis e a propriedade privada. Ou ainda que teria começado uma onda de estatização que levaria o Chile ao buraco. Juntando-se a tudo, ainda havia a forte pressão dos EUA contra Allende.

O fato é que o socialista Allende iniciou uma forte onda polarizadora na sociedade. Até Fidel Castro chegou a visitar o Chile nesta época. Polarizações são sempre perigosas. Servem para um governante fazer o que quiser no poder pela “causa” (não importa qual seja) e ter apoio considerável. E restará sempre o argumento de que o “outro lado” é o diabo.

Mas, claro, é muito fácil dizer isso tudo contra Allende como forma de legitimar um golpe. É totalmente estúpido, na verdade. Se fôssemos pensar desse modo, não dá pra saber o que seria pior: se uma ditadura socialista ou uma militar. As duas, de qualquer forma, seriam reprováveis sob qualquer ponto de vista.

Pinochet pegou um país quebrado, em 1973, com altas taxas de inflação, e tornou a economia chilena em uma das mais estáveis do continente. O Chile foi um dos primeiros países a implementar o modelo liberal na América Latina. Não a toa, o Chile é considerado um dos melhores países da região.

Mas defender Pinochet tomando por base o tipo de economia que ele impôs no Chile seria uma bobagem absurda. Até porque o conceito liberal de sociedade não diz respeito apenas à economia. (Pena que tal bobagem, à esquerda, seja válida, a exemplo de Fidel Castro, que está há 47 anos agarrado ao poder.)

Pinochet deve ser lembrado, antes de tudo, como criminoso. E não como um “liberal”.

(Em dezembro de 2006)

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