Quem é o golpista?

Acho que o que mais me irrita nesse tipo de movimento como o “Cansei” é notar que muitos de seus líderes pedem uma moralidade exemplar, mas, no dia a dia, a coisa não é bem assim… sabe como é o jeitinho brasileiro. Cansei (ops) de ver empresário todo espumando de indignação frente ao governo e, na sua esfera de trabalho e vida pessoal, ser um péssimo patrão, tratar mal os funcionários, não ter respeito mínimo ao próximo. (Isso sem contar as pessoas que furam filas, desobedecem leis de trânsito, sonegam impostos, jogam lixo na rua etc.). É aquele velho lema: se você quer pedir moralidade, tenha uma moral minimamente decente. Infelizmente, não é isso que eu vejo por aí – existem as exceções de sempre, é claro.

Por outro lado, é de chorar ver que os adeptos do governo vêem os protestos contra o governo como uma coisa apenas elitista e golpista. Quer dizer, não pode mais falar mal do governo, agora?

O “Estadão” publicou ontem uma matéria excelente do Carlos Marchi, mostrando o grau de – não queria usar essa palavra, mas na falta de uma melhor, uso-a – imbecilidade. A matéria começa assim: A democracia está em xeque, acusou na semana passada o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao irritar-se com apupos de pequenos grupos em Cuiabá e Campo Grande. ”’Com a democracia não se brinca”’, ameaçou Lula, ”’porque o que vem depois dela é muito pior”’. A reação não combina com o tom duríssimo com que, durante 24 anos, ele vergastou governos e personagens a quem fazia uma oposição implacável.

É mais ou menos por aí. Marchi lembra que, sob o comando de Lula, o PT apresentou vários pedidos de impeachment contra FHC – que, aliás, foi chamado de “ladrão” e “corrupto”. (José Sarney foi chamado de grileiro e Itamar Franco, de imbecil.) Diz um trecho da matéria, citando fala de Lula: ‘Se eles (FHC e seus aliados) tivessem uma escola para ensinar a governar, eu não deixaria meus filhos entrar (sic), porque o máximo que meu filho ia aprender era roubar, e não governar.’

A matéria lembra o bordão “Fora FHC” lançado por uma corrente do PT, em dezembro de 1998. Mesmo não tendo aprovado o bordão, preferindo o “Basta de FHC”, Tarso Genro escreveu um artigo em maio de 1999 defendendo o “Fora FHC”.

Trecho da matéria: Só nos primeiros seis meses de 1998, um ano eleitoral, o PT fez cinco representações pedindo o impeachment de FHC, ao contrário da atual oposição, que evitou chegar ao impeachment no escândalo do mensalão.

Lula gosta de dizer que a eleição acabou em outubro, e que querem fazer um “terceiro turno” – como se todo mundo tivesse que ficar calado depois que um governo é eleito.

Em 8 de julho de 1999, o PT decidiu promover passeatas para pressionar a Câmara a iniciar um processo de impeachment contra FHC, explicou Lula à época, sem se dar conta de que a eleição acabara nove meses antes e ele tinha sido derrotado.

Na comemoração do 1º de Maio de 1997, em São Bernardo, Lula acusou FHC de estar ”metido na maracutaia dos precatórios, do Sivam, do Proer e da compra de deputados para a reeleição”. Em seguida, a CUT-SP comandou massiva vaia a FHC, à qual Lula assistiu com um sorriso maroto, sem achar – como acha hoje – que vaias ao presidente podem ameaçar a democracia.

A matéria lembra também que Lula já tomou vaias da esquerda (no Fórum Social em 2003, da CUT no mesmo ano, na fábrica da Mercedes em 2004 e pelos sem-terra no mesmo ano), mas nunca se incomodou muito. Chegou a dizer, na época, que achava a vaia tão importante quanto o aplauso.

Matéria completa aqui.

Anúncios
Esse post foi publicado em Brasil, Jornalismo, Política. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s