Estatais

Eu, num passado bem recente, era uma pessoa cheia de dogmas. Eu era jovem e idealista. Não concordava em ver “meu” país ser “vendido” a “preço de banana” por aí, que coisa. Eu acreditava que o Estado devia ser o dono de 100% de “nossas” riquezas. Eu acreditava que, no Brasil, um governo poderia ser ético, honesto e não usar as estatais em benefício próprio. Eu cheguei a acreditar que políticos queriam dirigir as estatais apenas pelo bom salário que receberiam. Vê se pode.

Essa lengalenga toda porque eu queria falar desse negócio de plebiscito da reestatização da Vale do Rio Doce, uma idéia tão sem cabeça, que me deu preguiça danada, mas eu resolvi mesmo assim tocar no assunto.

Em primeiro lugar, os que defendem essas estrovengas estatais acreditam piamente que isso seria melhor para o Brasil, pois uma estatal estaria interessada primeiro no consumidor, depois no lucro – ou melhor, uma estatal não precisaria ter lucro nenhum, podendo arcar até com prejuízos. Aí começa o problema: sem lucro, há sucateamento; com sucateamento, quem se dana é o consumidor.

Segundo: as estatais são fontes excelentes para os políticos arrumarem recursos para as eleições. Só não enxerga isso quem tem a visão embaçada por uma ideologia muito chinfrim. As estatais sofrem uma influência tremenda dos que estão no poder. São usadas por eles. É isso o que se quer? Quando você vê Lula dando a direção de Furnas ao PMDB (Luiz Paulo Conde), não é porque ele achou que o cidadão vai dirigir bem a empresa. Ele deu a direção porque foi pressionado a fazer isso. E aceitou a pressão. É assim que funciona – o presidente precisa amealhar apoios.

Quanto mais o Estado brasileiro se livrar dessas estatais pesadas, morosas, que só sugam dinheiro, melhor. Menos pressão e menos poder o Estado vai ter para fazer jogos sujos, chantagens e lobbies. É tão difícil perceber isso? Agora, obviamente eu não estou querendo dizer que tudo deva ser privatizado. O Estado tem um papel fundamental na vida de um país. Deve(ria) prover saúde, educação básica, cuidar das ruas, estradas, dar segurança, saneamento básico etc. a todos

Agora, queria citar alguns dados sobre a Vale. Num artigo no Estadão de domingo passado, Suely Caldas mostra alguns dados impressionantes:

Em 1997, ano da privatização, a empresa pagou US$ 110 milhões em impostos e dividendos. Em 2006, o número foi 23 maior: US$ 2,6 bilhões. De 97 a 2006, o número de funcionários aumentou 5 vezes, de 11 mil para 56 mil. As exportações triplicaram, de US$ 3 bilhões para US$ 9 bilhões. A produção passou de 100 milhões de toneladas para 250 milhões (ano).

Um número que eu achei impressionante: em 54 anos de controle estatal, a Vale investiu US$ 24 bilhões. De 2001 a 2006, ela investiu US$ 44,6 bilhões. O dobra, praticamente, em 20% de tempo. Mais: o Estado recebe quantias 20 vezes maiores hoje do que quando a empresa era estatal.

Então, porque a grita dos reestatizantes?

UPDATE

De Lauro Jardim na coluna “Radar” da VEJA deste fim de semana:

“O senador Edison Lobão (DEM/MA) votou a favor de Renan Calheiros, apesar de o seu partido ter fechado questão em torno da cassação. Beleza. Nos dias que antecederam a votação no Senado, Lobão recebeu uma notícia que amoleceu mais ainda seu coração com grossas artérias governistas: seu filho, Marcio, foi indicado pelo Banco do Brasil para presidir a Brasilcap, empresa de títulos de capitalização. Marcio, aliás, é sócio do pai em quatro emissoras de TV no Maranhão”.

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