Entrevista com Diogo Mainardi

Diogo Mainardi: “Lula prefere o conchavo, sempre. A reação preferida dele é a de compra e venda”

Liguei para a casa de Diogo Mainardi às duas e meia da tarde do feriado da Proclamação da República. Uma moça, provavelmente a empregada da casa, atendeu e avisou-me: “O Diogo está dormindo”.

Fui imediatamente jogado para uma de suas colunas, na qual ele diz que passaria boa parte do segundo mandato do governo Lula dormindo: “Tenho dormido muito. Durmo antes do almoço. Durmo depois do almoço. Cochilo meia hora no fim da tarde. Durmo profundamente a noite toda. A idéia é transcorrer os quatro anos do segundo mandato lulista na cama. A lógica é simples: uma hora a mais de sono significa uma hora a menos de Lula”. Temi pela entrevista.

Por sorte, ao ligar novamente uma hora depois, foi o próprio Diogo quem atendeu ao telefone. Simpático, com uma leve tosse a lhe interromper as respostas, ele discorreu sobre o governo Lula, imprensa, Congresso Nacional e aspectos culturais do país.

O trecho da coluna acima, e outras 94, publicadas entre março de 2005 a setembro de 2007, estão presentes no recém-lançado “Lula é Minha Anta” (Record). Os textos, que trazem adendos e explicações de contextos, compõem uma radiografia do que foi o governo Lula nos últimos anos. Quando se quiser estudar a fundo o que de tenebroso aconteceu no período, as colunas de Mainardi serão fonte obrigatória. O que veio antes, desde que Mainardi se tornou colunista de “Veja”, no carnaval de 1999, está em “A Tapas e Pontapés” (Record).

Mainardi se tornou figura de destaque durante o governo Lula. Quando, no início do primeiro mandato, boa parte da imprensa entusiasmava-se com Lula no poder, Mainardi tratava de criticar ferozmente os jornalistas e os petistas. Brigou e polemizou com meio mundo.

Colunista mais lido e comentado de “Veja”, Diogo Mainardi, 46, casado e pai de dois filhos, escreveu quatro romances (“Malthus”, “Arquipélago”, “Polígono das Secas” e “Contra o Brasil”) e dois roteiros cinematográficos (“16060” e “Mater Dei”). Além da coluna, Mainardi produz um podcast semanal para o site de “Veja” e participa do programa de debates Manhattan Connection, no canal a cabo GNT.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Durante os últimos três anos, seu esporte preferido foi a caça ao Lula…
Diogo Mainardi –
Eu já estou indo pro quinto ano. Eu comecei em 2002 tentando desmoralizá-lo.

Você se sente frustrado por ele ainda estar no poder e ter certa popularidade?
Não, eu não sou político, não estou atrás do efeito do meu trabalho. Não sou eu que tenho que tirá-lo de lá, não sou eu que tenho que fazer também todas as apurações. Não posso pôr ninguém na cadeia, infelizmente; não posso processar; não posso violar sigilo bancário. Eu tenho as armas de que disponho: a curiosidade, o interesse e certo temperamento avesso a mistificações. E alguns instrumentos pra tentar chegar a alguma clareza sobre o funcionamento da política brasileira, de como a gente funciona, de como a gente se reflete na política.

Por que o Lula conseguiu se reeleger e ter ainda popularidade? As pessoas ficaram tão cansadas de ver escândalo, que acharam melhor deixar pra lá?
Houve um fato objetivo, uma proteção por parte da oposição e por parte da imprensa. Esse fato foi muito evidente desde o começo, quando o Lula estava lá embaixo. É uma mentira que a popularidade dele não tenha sido afetada pelos escândalos. No final de 2005, a popularidade estava lá embaixo. Ali se fez um cálculo, a oposição contou com a ajuda da imprensa, da academia, de todos os setores que sempre tiveram simpatia pelo PT e pelo Lula, e se tentou levar adiante a presidência até o final, sem envolvê-lo diretamente nos escândalos, para substituí-lo de maneira macia e sem expor a própria roubalheira da oposição. Havia muito medo, muito temor, de uma retaliação, que a investigação da roubalheira do PT recaísse sobre a roubalheira dos partidos que vieram antes. Como eles roubaram das mesmas fontes, era muito difícil chegar ao fundo da questão.

Ninguém queria que se apurasse nada.
Não, ninguém queria. Os interesses são cruzados aí, inclusive com as empresas nacionais. O que a gente tem no Brasil é um capitalismo manco. Algumas das maiores empresas, muitas das que participaram das privatizações, têm muito dinheiro estatal, que vem através de financiamentos do BNDES, do Banco do Brasil, dos fundos de pensão… Então, a promiscuidade é muito grande entre os nossos capitalistas e a política.

Qual vai ser a herança do governo Lula?
Igual a do governo Sarney, do governo Collor, do governo Itamar, do governo Fernando Henrique. Vai ser mais um período que será recordado como um buraco, mais um período em que o país não fez nenhum salto adiante, não olhou pra frente, não reformou o que tinha de ser reformado. Não trouxe novas idéias, não melhorou a visão que o país tem a respeito de si. Acho que é mais do mesmo. Serão oito anos que a gente empurrou as questões nacionais com a barriga.

Há possibilidade de um terceiro mandato do Lula?
Não acredito. Eu acho que se não houvesse risco algum, o Lula certamente optaria por um terceiro mandato. Mas ele não é uma pessoa de conflito. Nas tentativas que fez de controlar a imprensa, no primeiro mandato, por exemplo, quando a situação começou a apertar e houve reação do outro lado, ele puxou o carro. O Lula prefere o conchavo, sempre. A reação preferida dele é a de compra e venda. No caso do terceiro mandato, ele pode até conseguir, usando bem os canais de compra e venda, obter uma autorização ou modificação na Constituição para que possa concorrer ao terceiro mandato. Mas o custo vai ser tão grande, o confronto vai ser tão grande, que eu acho que ele não está disposto a enfrentar.

Você falava da imprensa, de como ela foi submissa nos primeiros meses do governo Lula. Você fez a famosa listinha dos jornalistas alinhados… (Mainardi apontou como governistas nomes como Franklin Martins, Tereza Cruvinel, Maria Helena Chagas, Paulo Henrique Amorim e Kennedy Alencar.)
Uma parte deles foi pro governo. Alguns perderam o emprego, outros foram pro governo. Alguns tentaram se desmarcar.

Você acha que a imprensa hoje está mais vigilante?
Sim. Ela está menos alinhada. Quando a gente fala que a minha luta foi infrutífera, eu acho que, claro, o Lula está aí, foi reeleito e ainda é muito popular, mas no nosso ambiente sabe-se exatamente o que é Lula. E a imagem romantizada que havia a respeito dele não existe mais. Então, ele perdeu uma aura que lhe garantia a intocabilidade. Nesse ponto, a imprensa está mais atenta. Mas, por outro lado, existe uma falta de curiosidade pra investigar o governo, e às vezes até falta de material humano, que impedem qualquer tipo de reação mais articulada aos desvios do poder.

Você chegou a ir ao Congresso Nacional. Como são os nossos políticos?
Eles são tão ruins quanto a gente poderia supor a distância. A minha viagem foi totalmente inútil, porque eu não precisava ir ao Congresso pra ver como eles são ordinários. Você não precisa empreender essa viagem, colocar paletó e gravata e agüentar o salão verde, ou o azul, aquele carpete… Você pode ver essas coisas a distância. Acho o contato com eles bastante nocivo, para os profissionais de imprensa sobretudo, porque cria vínculo pessoal, e vínculo pessoal em política é sempre danoso.

O Congresso é um espelho bastante acurado do Brasil?
Ele reflete o que a gente tem de pior, sem dúvida. É um reflexo do Brasil. O Congresso consegue concentrar o que nós temos de mais retrógrado, de mais burro, de mais inescrupuloso.

Você escreveu que “Tropa de Elite” encerrava uma discussão. Por quê? Aliás, o que você achou do filme?
O filme eu achei bastante medíocre, leva uma hora pra começar. Muita enrolação de lingüiça. Na primeira hora, o filme é bastante médio. Não me entusiasmou. Mas, na questão da violência, o que me incomoda é que se considere solução tudo o que não é solução, tudo o que é periférico, secundário. É um ponto que eu venho insistindo há muito tempo. Quando aparecem explicações pro fenômeno da criminalidade no Brasil, ou soluções que não envolvem repressão, polícia, cadeia, eu tento desmontar essas teses, porque elas são contraproducentes. Elas acabam insuflando a violência. Quando você aponta as soluções erradas, tipo programas sociais, Bolsa Família, diminuição de desigualdade, ou todo esse tipo de papo furado. Quando você começa a enfrentar as questões práticas do combate à criminalidade e da violência com polícia, cadeia, legislação rigorosa e aplicada com rapidez… Esses pontos não são tão complicados assim. A gente perdeu vinte anos com planos mirabolantes pra resolver a hiperinflação. E existe uma questão técnica ali, que quando foi enfrentada de maneira menos criativa deu resultado. Os problemas parecem muito maiores quando as soluções apresentadas são falsas. Quando as soluções apresentadas são mais simples e mais diretas, costumam funcionar melhor.

Existe uma característica geral do caráter do povo brasileiro?
Eu comentei num podcast com o Reinaldo Azevedo uma pesquisa do Instituto Ipsos, que mostra que 50% dos brasileiros nem sabem apontar o Brasil no mapa-múndi. Então quando a gente não sabe nem de onde vem, é difícil tratar o país como uma entidade fechada. Eu acho que a gente é esse troço aqui, a gente é um país subdesenvolvido, com idéias atrasadas. E quem puder sair daqui faz muito bem.

O Brasil é um espelho da colonização, do que foi feito no passado?
Ele certamente é o resultado do que se fez aqui, antes da colonização, durante e depois da independência. A gente é resultado de um monte de escolhas mal feitas, culturas retrógradas, de idéias regressivas, que criaram esse caldo de subdesenvolvimento.

O Brasil produziu gênios?
A gente tem uma literatura bastante melhor do que o país, por exemplo. A gente não tem uma literatura de nível internacional, mas é uma boa literatura, que retrata bastante bem o país. Alguns grandes escritores, e uma porção de médios, conseguiram criar uma língua, deram uma cara pro país, melhor do que o próprio país. São os mesmos de sempre, não vou ficar citando Machado de Assis e Lima Barreto, mas são os nossos autores, não vou dizer ninguém que não esteja editado pessimamente, com péssimas ilustrações, ou que não esteja em alguma edição de livros de bolso.

Thoreau disse que “o melhor go­verno é o que governa menos”, você concorda?
Não tem a menor dúvida. Mas é uma experiência que a gente ainda não teve. Está bem longe. E quando se fala em governo, é dinheiro. Quanto menos dinheiro estiver na mão do governo, melhor. É mais simples do que uma questão de formação do país, não é nada inatingível, não é nada que não possa ser atingido com um bom emagrecimento dos gastos do Estado. Você mede o excesso de governo pela quantidade de dinheiro que ele administra e o que faz com esse dinheiro. É mais simples do que uma questão toucquevilliana.

TRECHO
“Chegaram a atribuir motivos ideológicos à minha campanha contra o presidente. Não é nada disso. Tentei derrubá-lo por esporte. Há quem pesque. Há quem cace. Eu não. Prefiro tentar derrubar Lula. Ele é minha anta. Ele é minha paca. O fato é que atirei tanto, e em tantas direções, que acabei atingindo um monte de alvos. Virei o cacique Cobra Coral do parajornalismo.” (Diogo Mainardi, em “Lula é Minha Anta (240 páginas, editora Record, R$ 35,00), coletânea de artigos publicados na revista “Veja” entre março de 2005 a setembro de 2007.)

Anúncios
Esse post foi publicado em Brasil, Jornalismo, Política. Bookmark o link permanente.

23 respostas para Entrevista com Diogo Mainardi

  1. Pingback: Links comentados #7 : paulo polzonoff jr

  2. Pingback: Dê risada e seja uma pessoa alegre! « Vejo tudo e não morro | Que Língua!

  3. renato olavo disse:

    Pra dar espaço pra uma besta como o Mainardi, tem que ser igual a ele.
    Meu caro, as falcatruas são mais da Veja, Daniel Dantas, Mainardi e corja, que de qquer outro ser.

  4. Hudson disse:

    E você Renato Olavo, o que faz da vida?

  5. Susan disse:

    O Diogo Mainardi me faz rir…. e nao perder a esperanca !

  6. Iasmin disse:

    Adoro esse cara!

  7. rosilene abintes disse:

    Voce e tudo, simboliza o universo imenso e grandioso. Tenho sessenta anos . Voce e o cara mais incrivel que eu conheço. parabens por voce existir.

  8. damazo disse:

    se diogo é tão ruim por que o temem tanto?

  9. Wilson Silva disse:

    Prefiro ouvir uma hora de CPI com depoimentos de Daniel Dantas, do Naji Nahas e do Celso Pita do que ouvir cinco minutos do que essa anta do Diogo Mainardi tem pra dizer. Esse cara é muito ridículo. Nem Carlos Lacerda e Paulo Francis seriam tão nós cegos quanto esse cara.

  10. Yolanda disse:

    Amo, amo, amo. Gostaria de ter um décimo do talento dele. Independente e criativo. Falem o que falarem, é só inveja e despeito.

  11. Lisie disse:

    Num país amorfo , quem fala fora do ritmo é apedrejado.Calma é só um cara inteligente.Não se assustem tanto. Faz gato e sapato, fala asneiras qdo dá na telha.É divertido.Tem muita coisa boa no que fala. Tem muita asneira no meio pra puxar papo.Para o pessoal da nossa terrra do Brasil pensar,refletir, concordar ,discordar,odiar e amar.Ai ja esta de bom tamanho, pois se consegue mexer um pouco que seja com o marasmo , impunidade, condecendência parda que campeiam por ai ja estamos no lucro tendo Diogo Mainardi.

  12. M. Nicholas disse:

    Só acho que ele devia passar grecin 2000 no esquizito topete grisalho… Fora isto, é um cara legal…

  13. Natasha disse:

    Diogo Mainardi é mais um riquinho metido a besta que nunca precisou ir a um posto de saúde, nunca passou fome e seu esporte preferido é caça ao pobres.
    Como disse o companheiro em um comentário acima, é melhor ficar ouvindo uma hr de CPI do que 5 minutos do que Mainardi tem a dizer. E não bastava Diogo ser um cara que não conhece a realidade brasileira, como também ser colunista da revista que é…
    Mas é muito bom que o governo LULA receba essas críticas de pessoas da direita conservadora, riquinhos, intelectuais e etc., pq só assim nos damos realmente conta de que o governo LULA esta surtindo efeito para aqueles que são a maioria no Brasil, o POVO!!
    E obrigado Diogo Mainardi, por vc ser a nossa grande ANTA!!

  14. Dóris disse:

    É isso aí Wilton concordo plenamente!Esse
    cara é muito nó cego mesmo… quão ingênuo
    seria o povo pra acreditar que não existem motivos ideológicos por trás disso, acreditar nisso seria até burrice!!

  15. André Luiz disse:

    Leviano. Essa é a palavra que adjetiva esse joranalista. Ele deve achar que seria melhor voltarmos ao tempo da colonização ou da ditadura. Esta aliás, foi apoiada e sustentada por intelectuais como o Mainardi. É evidente que essa anta(coitado do animal) tem pretensões ideológicas é sustentado por por cidadãos inescrupulosos que pretendem chegar ao poder. O “Mainardismo”(nome ridículo por sinal) é mais um movimento elitista e conservador que visa outro golpe político.
    Todos deveriam boicotar esse porta-voz direitista antes que seja tarde demais.

  16. kim disse:

    Não acredito na pureza de espírito de ninguém, todos tem um motivo para falar o que falam: dinheiro, emprego, existência, ainda assim uns fazem melhor que outros. O próprio Diogo sabe que muitas vezes dão mais importancia pra ele do que realmente ele possa ser,ainda assim ele agradece.

  17. Pingback: Mas como filhos dessa dama « Café na meia-noite

  18. Lívia disse:

    Olá, gostei muito da entrevista! Estou tentando falar com o Diogo Mainardi, mas não consigo o e-mail dele… Você tem? Ficaria muito grata!

    Abs,
    Lívia Vieira

  19. FBSF disse:

    Diogo Mainardi Forever!

  20. Larissa disse:

    Os pensamentos do Diogo divergem muito com os meus mas gosto de ler sua coluna e suas entrevistas. Estamos acostumados a ler só o que nos agrada e quando começamos a ler algo que não concordamos paramos na hora e partimos para a próxima página. Não é assim. Devemos sempre ler sobre tudo para nos informarmos e assim, contestarmos, discutirmos sobre tal assunto. Como já disse tenho algumas opniões diferentes das do Diogo mas ainda assim acho ele um cara inteligente e mais interessado em saber do nosso presidente do que nós mesmos. Parabéns pela entrevista!

  21. vera soua disse:

    Adoro ouvir o Diogo, pois odeio o PT e não suporto o Lulismo.

    Mas, por outro lado, alguém sabe me dizer por quê, o
    Diogo está sempre de mau humor.. por quê, ele não sorri sempre … ele é tão maravilhoso.

  22. joao alberto disse:

    um pouco radical, embora tenhamos algo em comum. Também odeio o PT.

  23. Marcelo Fraga disse:

    O esporte dele é a caça aos pobres. Ele, rico, não precisa de posto de saúde. Recebe muito dinheiro da Veja e da Globo (Manhattan Connection).
    Penso eu que quem aplaude o Dioguito é quem votou na direita e perdeu. Estão frustrados porque alguém de pouco estudo lidera o país.

    Admito: Lula nunca fez nada que beneficiasse a mim. Apenas creio que os que mais precisam (pobres) tiveram a ajuda que necessitavam.

    Mudando um pouco de assunto, acho ridículo quem despreza o nosso país.

    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s