Cuba, os 50 anos de revolução e um documentário

No último dia 31 de dezembro, Raúl Castro, o novo ditador cubano (sorry, presidente não é), disse que “um homem não pode mudar o destino de um país”, ao comentar a eleição de Barack Obama nos EUA. Um homem talvez não, mas um grupo com certeza. Raúl e seu irmão Fidel são exemplo claro disso.

Liderada por Fidel Castro, a revolução cubana, que completou 50 anos no último dia 2 de janeiro, tirou do poder (ditatorial) Fulgencio Batista. Fidel prometeu democracia, mas entregou uma ditadura que fuzilou seus inimigos tão logo chegou ao poder.

O que mais me irrita na história das ditaduras é como os caprichos de uma pessoa tolhem e moldam a vida de um país e das pessoas por anos e anos. Coisas como liberdades individuais são ignoradas e trocadas por slogans nacionalistas, antiimperialistas e bocós, como o “pátria ou morte”.

Uma parte das pessoas, simpáticas a Cuba, sempre que se toca no assunto diz um “é preciso seriedade ao tratar do assunto” ou faz comparações (com números de saúde e educação) nada lisonjeiras com os EUA – como se os EUA fossem o padrão para tudo. E eu duvido que, entre um e outro, a maioria preferisse Cuba. Alguns dos motivos: a família Castro está no poder há mais de 50 anos, não há liberdade de imprensa, o partido é único e nem se manifestar publicamente é legal. Isso sem contar que determinados livros são proibidos e que sair da ilha para ir para outro lugar é considerado uma traição – milhões de cubanos moram fora de Cuba, pois não quiseram viver no Paraíso dos Castro…

A questão não é só sobre dados de saúde e educação, vai além disso. Uma vez ouvi alguém dizer que foi a Cuba e o taxista era um biólogo com PhD – frustrado, pensei eu. E o ponto não é dizer que em outros países isso também acontece – sim, acontece, é claro que acontece. Acontece em todo lugar. A diferença é que em alguns lugares as pessoas podem mudar de vida, escolher outras coisas, ascender.

Quando se fala que o capitalismo é cruel, bom, ele é, por vezes, cruel mesmo. Competir tem o seu lado cruel. O capitalismo pode despertar o que de melhor e o que de pior há nas pessoas – da superação à ganância. Mas as pessoas têm uma dose muito maior de liberdade individual.

Em um regime capitalista, uns ganham mais que os outros, há elites, há desigualdade, há preconceito, há ignorância, há injustiça – mas tende a haver mais mobilidade e possibilidade de mudanças. E eu me pergunto: é justo querer controlar um país como se fosse um laboratório? E outra: como se na Cuba atual não houvesse uma elite, que come bem, se veste bem e tem tudo o que quer. No “período especial”, não consta que Fidel ficou sem comer as suas lagostas.

E, ah, o embargo econômico existe: os EUA mantêm um embargo econômico à ilha desde 1962, reforçado em 1996, quando um avião civil foi abatido por caças cubanos. Aliás, essa história é bem boa e um documentário chamado “Shoot Down” faz o favor de contá-la.

À história: no começo da década de 1990, milhares de cubanos tentavam fugir da ilha em botes/balsas improvisadas (alguns chegavam ao ponto de usar câmaras de pneu de caminhão). Cuba vivia o “período especial”, época em que o país perdeu o apoio da União Soviética e passou por apuros econômicos.

Apenas um a cada quatro balseiros conseguia completar a travessia. Um grupo de voluntários, erradicados em Miami, o Hermanos al Rescate, foi formado com o objetivo de patrulhar parte da costa em pequenas aeronaves a procura de balseiros.

Durante um curto período, o governo cubano liberou a saída de quem quisesse ir embora do país. Até então, os cubanos eram recebidos nos EUA como refugiados políticos. Como o número de cubanos foi grande demais, o governo norte-americano resolveu “devolver” os cubanos ao país de origem.

Em 24 de fevereiro de 1996, o impensável aconteceu. Durante um vôo-patrulha (que voava neste dia também para apoiar um grupo de dissidentes que pedia reformas democráticas), o governo cubano autorizou o ataque aos dois aviões do Hermanos al Rescate – detalhe: em águas internacionais. Quatro pessoas morreram e a relação Cuba-EUA tornou-se inviável naquele momento.

O governo cubano afirmou à época que o abate havia sido feito em águas cubanas, o que foi desmentido pelo radar de um navio que navegava próximo. O radar confirma que um dos aviões do grupo invadiu o espaço aéreo cubano, mas que o ataque aconteceu em águas internacionais.

Sobrinha de uma das vítimas, Cristina Khuly, a diretora do filme, entrevistou, em dez anos, ex-membros do governo cubano e do governo Clinton, além de familiares das vítimas. O filme resgata também os detalhes técnicos da manobra e traz o contexto político da época: um governo cubano acuado, com medo de perder o poder. O documentário mostra também que o governo cubano chegou até a infiltrar um agente no grupo.

As gravações reais dos pilotos dos MiGs cubanos durante a operação impressionam, assim como a reação de Fidel Castro, assumindo e defendendo o ataque.

Trailer do filme.

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Uma resposta para Cuba, os 50 anos de revolução e um documentário

  1. Mel disse:

    muito bacana seu blog!

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