Beto Brant

A estética conflitiva de Beto Brant
Troféus de melhor direção, trilha sonora e ator revelação no Festival de Brasília/2001, eleito melhor longal atino no Sundance/2002 e melhor filme pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Esses são alguns dos prêmios do filme “O Invasor” de Beto Brant. Um dos mais respeitados cineastas brasileiros, com três filmes na bagagem, fala ao Semana 3 sobre formas de divulgação de cinema, produção nacional, festivais, Oscar e, claro, de “O Invasor”. Além disso, à pedido, Brant fez uma lista dos dez melhores filmes nacionais de todos os tempos

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
José Ricardo Manini
Silvio Anunciação

“O Invasor” tem uma estética diferente dos outros dois filmes que você fez. De onde você tirou essa estética?
A estética vem do amadurecimento. Você faz três filmes e o exercício de tomada, a prática que você tem que enfrentar, de que maneira editar o filme, tudo traz o amadurecimento e gera uma compreensão do que é cinema. “O Invasor” é o filme que eu considero o meu filme mais redondo, o que eu me aprofundei mais, não que os outros dois (“Ação entre amigos” e “Os Matadores”) também não tenham sido experiências muito legais. Todos os filmes que eu faço são mergulhos na literatura do Marçal Aquino. Eu não relato minha experiência, eu pego o conflito sugerido pelo Marçal na literatura e começo a pesquisar, quem são os personagens, em que lugar eles circulam, e isso aconteceu nos três filmes. Este filme já tem uma atitude mais radical, que eu enfrentei mais, que eu fui mais fundo nas questões, o filme tem um conflito mais pessoal, porque eu vivo em São Paulo.

Você disse em uma entrevista que o Marçal Aquino retrata muito bem o Brasil moderno. Em quais pontos?
Como ele tem uma experiência grande como jornalista, ele tem uma forma de olhar o contemporâneo, de enxergar a crônica no que está por trás da notícia, não o que está na superfície, com seus números, sua objetividade e suas descrições, mas sim tentar ver as pessoas que estão por trás do fato jornalístico. E se posicionar e narrar aquilo do ponto de vista dessas pessoas.

“O Invasor” é, então, retrato de uma parte de São Paulo?
É uma história. Em primeiro lugar, o que eu acho que o Marçal faz é contar uma história, ele é um escritor. Ele tem uma habilidade pra construir histórias, as tramas são muito envolventes. Mas com certeza ele está sempre no reboque de alguma coisa que seja contemporânea, que seja atual, ligado à realidade. Isso aconteceu nos três filmes. Não tem outra ambição. É um olhar dele, não sei se é pessimista ou otimista. Eu acho que o final do filme não é pessimista, é otimista, de falar assim para uma das personagens, “menina, acorda, acorda!”, já que ela representa uma geração hedonista, que só quer saber de curtir a vida.

Parece que há uma onda de filmes procurando retratar a realidade…
Olha, a situação do “O Invasor” é completamente passível de acontecer, não é nada muito fora da realidade. Mas ele não é um filme realista, naturalista, porque de acordo com a paranóia do Ivan (personagem do filme), o filme vai criando um hiperealismo, ele viaja na estranheza da paranóia do personagem. Há uma super realidade ali. Há um incômodo, no tom das cores, na música, na imagem, como se isso fosse narrar a perspectiva do Ivan.

Como você acha que o diretor deve se portar nesse debate entre realidade e ficção, iniciado por “Cidade de Deus”, acusado de mostrar um lado muito negativo do bairro e que está interferindo naquela mesma realidade?

Isso é muito complicado, não sei dizer. A discussão é boa, faz parte do jogo da cultura, do jogo político, de se colocar questões e discutir. Ou seja: três milhões de espectadores (“Cidade de Deus”). Por que esse interesse todo?  Não que seja aquilo ali mesmo o que aconteceu, mas pelo menos uma parte daquilo aconteceu. Agora, também vai haver filmes que vão tratar do lado bacana da periferia, de diversos núcleos da realidade, de fazer um trabalho conjunto, aquele filme por exemplo da Rádio Favela, “Uma onda no ar”. Assim como existem várias igrejas evangélicas, que a mídia “mais inteligente” tem um preconceito tremendo. Mas existem linhas dessa comunidade religiosa, evangélica, que tem uma importância muito grande, por causa da união que eles têm na adversidade em que vivem. O que eu acho mais importante nisso aí hoje é que a politização é geral, não vem só do cineasta, mas da sociedade toda. Antigamente, as pessoas não estavam nem aí com o jornal. Pegavam uma revista semanal e achavam que estava mais do que bom. Agora, não. As pessoas estão a fim de saber passo a passo o que está acontecendo na política, existe uma politização geral, que pode ser vista muito bem nessa campanha do Lula. Mas isso é algo que já vem antes disso. Eu acho que o Estado brasileiro está se aperfeiçoando e há um momento que se explicitou o lado negro, o lado ruim, os vícios e eles estão sendo mostrados, as pessoas estão antenadas nisso. Hoje em dia há uma vigília muito maior, sobre o espaço da política social. Então isso não é algo isolado do cinema, acho que é geral. Como daqui a algum tempo será necessário filmes com um aprofundamento mais interior.

Como é o filme que você está pensando em fazer, não é?
É. Como é que você sabe?

É só uma pergunta.
Pois é. Desse filme eu não falo nada (risos). Mas vou falar pra defender, então. A sociedade se prende também em alguns valores morais. Não são só valores políticos, mas também de convívio social, preconceitos. Então é nesse lugar que eu vou tocar. Não no social, no particular.

Você acredita que vai haver um momento em que as pessoas irão se voltar para esse lado?
Não sei se vai haver. Se você pegar aquele filme “Janela da Alma”, você vai ver que ele é nessa direção. É algo muito sensível, nesse sentido. É afetivo e emocional. O “Madame Satã” eu acho que é um híbrido disso. Ao mesmo tempo em que ele apresenta aquela unidade familiar completamente estranha, bizarra, ele apresenta também uma poesia.

Você já disse que um de seus sonhos é que os seus filmes cheguem a um público enorme. Mas ao mesmo tempo você não abre mão do debate, não é?
Eu acho que esses filmes todos, inclusive “Os Matadores”, foram muito vistos, inclusive na Rede Globo, quando passou. Então não importa se sejam polêmicos ou não. A questão não é que o filme não seja apropriado para muita gente, mas que não existem hoje formas de apresentar este filme para muita gente.

E quais seriam estas formas?
Eu acho que tem uma questão de circuito exibidor, que é elitista, que é de shopping center. Não é que o cara não quer ver filme brasileiro. Quer, mas não pode, também. Então tem que ter formas de exibir como a televisão, que é grande e poderosíssima. Não pode ter essa idéia de que há uma programação ruim porque isso é o que o público quer ver. Isto é ridículo, uma estupidez. Eu acho que se o Canal Brasil fosse um canal de TV aberta ele iria dar um banho de popularidade.

Mas uma Rede Globo, por exemplo, não coloca o filme porque acha que não vai dar audiência.
Mas dá. Isto é uma questão política, não é uma questão de IBOPE. Os filmes brasileiros quando passam na Globo passam às onze horas, meia-noite. E mesmo assim dá audiência.

E qual seria essa questão política?
A questão é que a Globo também é produtora de imagens. Então por que é que ela vai comprar direitos de outros filmes, se ela vai desprestigiar o produto da casa? Outra coisa é a idéia de controle editorial que o conteúdo de alguns filmes não são convenientes. Há um controle ideológico da televisão. Isso é um medo. Agora, por que o Canal Brasil não é um canal aberto? Porque esvazia a audiência de quem já domina. O Canal Brasil é do Grupo Globo. Se fosse aberto, a audiência seria enorme e poderia até reverter essa renda pro realizador. Eles me ofereceram um dinheiro para mostrar “O Invasor” que era ridículo, 10 mil reais. A Globo também não paga muito melhor não. Paga 30, 40 mil pra exibir um filme. Mas imagina quanto custa 30 segundos de propaganda no intervalo de um filme. Então é ridículo. Se ela programasse o filme brasileiro não para meia-noite, mas para umas dez da noite, se pagasse melhor, como paga filmes americanos, então estaríamos em melhor situação.  O fato é que você não pode montar uma sala de cinema na periferia, isso é inviável comercialmente. E há alternativas ao circuito estabelecido, como o circuito universitário e o que a Lais Bodanzky tem feito, o Cine Mambembe, que passa por diversas partes do país com um projetor e apresenta o filme. Mas a televisão é o melhor instrumento de chegar. Seria ótimo poder estar na televisão aberta de uma forma melhor. Isso é entretenimento, é debate.

Apesar destes problemas de exibição, o cinema brasileiro tem apresentado desde a metade da década de 90 uma retomada no crescimento. Quem você citaria como os principais diretores?
É, 2002 foi um ano muito bom para o cinema. Desde 94, desde “Carlota Joaquina”, nós queríamos acreditar que existiam muitos filmes bons sendo feitos por aqui. Mas eram só alguns. Felizmente, no ano passado, vários filmes legais foram realmente feitos. E com uma boa surpresa: os documentários, que estão sendo bastante vistos e ganhando espaços nas salas de exibição. Eu gostei especialmente do “Santo Forte” (Eduardo Coutinho, 1997). Gostei muito também do “Madame Satã”, outro bem legal é o “Amarelo Manga”. O trabalho do Walter Salles e do João Moreira Salles é muito bacana. A Tata Amaral eu gosto muito do primeiro filme dela e o Jorge Furtado, eu acho que em 2003 vai arrepiar.

E o Fernando Meirelles?
(Silêncio)

E o Fernando Meirelles?
(Outra longa pausa) Ah, cara… eu não vi nada dele. Só vi o “Cidade de Deus”. (Pausa) Mas é um trabalho legal… Um filme muito bem feito, competente… Acho legal o final dele, com o lance da foto do personagem, “com essa foto eu arrumo emprego, com a outra eu viro herói mas sou morto” e ele opta pela que vai arrumar o emprego, ou seja,  ninguém precisa ser herói. Essa moral do filme eu acho legal.

O que você pensa sobre o Oscar?
Todo mundo critica para burro que o cinema brasileiro é estrangeiro dentro do seu próprio país, por quê? Por que o mercado é formatado, tem um embaixador do cinema americano aqui que defende o seu mercado, seus privilégios. O Oscar é a celebração máxima do marketing do cinema de Hollywood. Então eu não entendo para quê tanta festa se aquilo é a celebração do carrasco do cinema. Eu não tenho nada contra o Oscar, só acho ridículo a importância que se dá a ele. Acho ridículo o público se pautar pelo filme que foi indicado ao Oscar. “Ah, se ‘Cidade de Deus’ fosse indicado para o Oscar ia chegar a 5 milhões de espectadores”. Isso é uma equação cruel do marketing do cinema. Agora, divirtam-se com o Oscar, eu não perco meu tempo, tenho coisa mais interessante para fazer. Tem também o cara que vem me dar os parabéns porque o filme ganha prêmio. Daí eu pergunto para ele: “Você viu o filme?” E ele: “Ah, não vi”. Porra, então, só me dá parabéns pelo filme.

Você pode fazer uma lista dos 10 melhores filmes nacionais de todos os tempos?
Difícil, mas vamos lá: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Gláuber Rocha), “Lúcio Flávio” (Hector Babenco), “Brincan­do nos Campos do Senhor” (Hector Babenco), “Memórias do Cárcere” (Nelson Pereira dos Santos), “Copacabana Me Engana” (Antonio Calmon), “Filme Demência” (Carlos Reichenbach), “Todas as Mulheres do Mundo” (Domingos Oliveira), “Madame Satã” (Karim Aïnouz), “Anjos do Arrabalde” (Carlos Reichenbach) e “Macunaíma” (Joaquim Pedro de Andrade).

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 10, fevereiro de 2003)

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