Jards Macalé

Maldito anarquista
Não exija coerência. Nem mesmo dos editores que se torturaram com a edição desta entrevista de Jards Arnet da Silva, ou Jards Macalé, 61, como é conhecido. Macalé corta trechos, interrompe, pula algumas perguntas e, quando quer, não responde. Politicamente, depois da experiência frustada do brizolismo, voltou ao seu “velho e querido anarquismo”. É um mito da música popular brasileira. Mito desconhecido, mito para poucos. Algumas de suas canções como “Vapor Barato” (uma das mais regravadas), “Hotel das Estrelas” e “Gotham City” são muito conhecidas entre o público em geral, mas ninguém sabe quem é o autor delas. Em entrevista na Estação Santa Fé Pizza Bar, em Barão Geraldo, onde fez um show, Macalé falou sobre sua carreira, os amigos tropicalistas, a popularização do samba, suas obras e os momentos “terríveis” da ditadura militar

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
Gustavo Martinez
Silvio Anunciação

Como surgiu esse apelido de Jards Macalé?
Bom, eu não sabia jogar bola direito. Mas eu gostava de ver (mas, pra mim, ver os melhores momentos já bastam). Eu ia jogar bola com a rapaziada e o pessoal sempre dizia: “Passa a boa, Macalé!” Me gozando, porque o Macalé era um jogador do Botafogo que não sei se jogava bem, se jogava mal, nunca fui saber.

Diziam que jogava mal…
É? Diziam… (risos). Não sei, mas eu sempre ouvia: “Passa a bola, Macalé!”, e perdia a bola. Aí ficou Macalé.

E os tropicalistas, Macalé? São teus amigos?
São meus amigos. Com algumas exceções. Inclusive eu nunca fui tropicalista, eu sempre digo que eu fui pré-tropicalista e pós-tropicalista.

Igual o Tom Zé?
É. O Tom Zé falou isso? Eu sou pré e pós. Mais do que o Tom Zé, porque o Tom Zé foi um tropicalista de verdade. Tá na capa, fotografado e tudo. Não é ele que está segurando um penico naquele disco “Tropicália”?

Não, é o Rogério Duprat.
É o Rogério Duprat que está segurando, verdade. E o Tom Zé está do lado, acho.

E o que é ser um pré e um pós-tropicalista?
Quando Maria Bethânia veio pro Rio de Janeiro substituir Nara Leão na peça Opinião, ela queria sair de Salvador, mudar, ela já estava cansada. Então, quando ela veio ao Rio, ficou um período hospedada lá em casa. E através dela eu conheci a Gracinha, a Gal Costa, Caetano se aproximou mais. Minha casa virou uma referência pras pessoas, muitos dormiam num dos quartos. O pessoal até brinca, parecia aquele negócio dos Irmãos Marx, do camarote de navio, camarote de navio tinha mil pessoas lá dentro. O Rogério Drupat também dormia lá, um dos bons pensadores do tropicalismo. Então havia muita conversa, muita vivência da coisa, eu vivi o pré-tropicalismo.

E você compartilhava das mesmas idéias?
Não, não. Por exemplo: quando Caetano me mostrou em primeira mão o disco “Tropicais”, ele perguntou o que eu achava. E eu disse não havia gostado. Eu não gostei. Eu gostei de “Clarice”, a música mais fantástica do tropicalismo. Quando eles começaram a ser vaiados, eu torci por eles. Mas nessa época eu fui estudar violão, violoncelo, fiz piano, composição, orquestração etc.

E ficou quanto tempo nessa?
Eu passei uns 4 anos estudando música. Aí quando o Caetano e o Gil foram presos, “convidados” a sair do país, eu já estava com uma parceria com o Capinam. Aí nós fizemos “Gotham City”, que entrou no Festival Internacional da Canção – e houve toda aquela coisa de vaiarem a gente. Foi nessa época que houve a sacanagem da ditadura, de expulsar e prender as pessoas. Foi aí que surgiu o termo “maldito”, que não é, aliás, nenhuma honra.

E qual a sensação de entrar num teatro e ser vaiado?
Eu achei ótimo. Dá uma sensação de orgulho, quase um orgasmo. Ser aplaudido é pinto, qualquer um é aplaudido. Vaiado tem hora. Precisa uma vaia para você se sentir firme. Como diz o Luiz Melodia: viva a vaia. Agora, ser vaiado toda hora também não é bom, que a auto-estima vai pras picas. Agora, nessas ocasiões em que é uma vaia uníssona, dá orgulho, porque bateu em algum lugar, não passou em brancas nuvens.

Havia pressão durante a ditadura?
Era horrível. Batiam na minha casa perguntando: “Você sabe nadar?” Ixi, não sei. “É porque nós vamos levar você para um passeio na Baía de Guanabara.” Era terrorismo. Tanto que quando eu lancei “Aprender a Nadar”, eu fui até o cais da ponte Rio-Niterói, lancei o disco na Baía de Guanabara literalmente. Era a resposta final: “Aprendi a nadar, pronto, acabou.”

Voltando na questão do tropicalismo, você acha que o Tom Zé foi rejeitado?
É, dispersaram o Tom Zé do processo. E o Tom Zé tinha uma forma de ser mais recolhida. É que o Caetano se apropriou do tropicalismo (o Gil também, mas o Gil era mais generoso), ficou sendo quase que o único. Sou eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu. E isso é uma forma de ser dele. Eu me afastei porque não concordava com ele nem como pensador, e nem com a pessoa, com o exibicionismo. Eu não conseguia conversar. E nessa o Tom Zé se recolheu. E eles avançaram, dentro da indústria cultural, foram mais ágeis, não tiveram muitos pudores relacionados à indústria, aliás, eles já diziam, o próprio maestro Rogério Duprat, “vocês têm medo, vão ter medo de se relacionar com essa indústria?”

Você gostava do que o Tom Zé fazia?
O Tom Zé sempre foi um compositor extraordinário. Estranho o jeito dele de ver e falar, é difícil, mas nada é tão difícil assim. Se você pega uma pessoa difícil e bota durante oito meses na abertura da novela das 8, acabou. Isso é massificação. Mas naquela época o Tom Zé era um compositor erudito e popular.

Voltando ao Caetano, você acha que ele “endireitou”, ideologicamente falando, de uns anos pra cá?
O Caetano nunca foi de esquerda. Ele sempre foi meio em cima do muro. Se bem que ele teve a atitude de ter levado o tropicalismo unido, porque o tropicalismo era uma atitude. E o tropicalismo também deu uma liberada geral nas coisas, isso ninguém pode negar. Abriu para vários caminhos. Somou o rock com samba. Antes o rock era rock, o samba era samba, isso era isso, aquilo era aquilo.

E como foi trabalhar  com o Glauber Rocha?
Ele me pediu pra fazer a transcrição para viola das músicas de “Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. E fiz algumas coisas em televisão com o Gilberto Vasconcelos. A gente tentou fazer trilha sonora do Brizola, uma sinfonia popular, que está pronta, mas nunca entrou no ar. Eu era brizolista.

É ainda?
Não, atualmente eu voltei ao meu velho e querido anarquismo.

Porque você ficou 11 anos sem gravar nada, de 1978 a 1989?
Eu briguei com as gravadoras todas. Aproveitando o ensejo: eu achava aquilo tudo uma merda. Se bem que eu percebi que elas me gravavam, pelo menos.

Quais eram os problemas?
Era na visão de mundo. Eles buscavam um negócio mais comercial. E eu tinha uma visão de poeta, de artista, de criador. É outra história. E politicamente a coisa estava louca. As minhas atitudes não cabiam muito bem dentro de uma gravadora.

E esse negócio de colocar “amor” no ordem e progresso da bandeira? Andaram falando que você é positivista…
Não, eu não sou positivista. Também não sou negativista. Sou a-nar-quis-ta. Mas eu estranhei, através da música “Positivismo”, de Noel Rosa e Orestes Barbosa, que vem (canta) “o amor vem por princípio, ordem por base e o progresso”. Eu estranhei por que não havia o amor, só o lema ordem e progresso direto. Eu resolvi fazer uma campanha pela inclusão do amor na bandeira brasileira, porque eu acho que muda tudo. “Amor, ordem e progresso” é outra coisa. E aí o deputado federal Chico Alencar, do Rio, entrou numa e mandou um projeto de lei. E o Suplicy entrou também.

Publicada originalmente na revista Semana 3 (ed. 25, agosto de 2004)

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Uma resposta para Jards Macalé

  1. Partido Leve disse:

    Salve Salve Macalé!!
    O Partido Leve também esta aderindo a campanha da inclusão da palavra Amor na bandeira do Brasil!!

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