Juca Kfouri

O jornalismo combativo de Juca Kfouri
Juca Kfouri, 53, é atualmente comentarista esportivo da rádio CBN, apresentador da Rede TV!, colunista do jornal esportivo “Lance!” e um dos jornalistas esportivos brasileiros mais combativos e respeitados. Já teve mais de 100 processos, muitos deles da própria CBF, leia-se Ricardo Teixeira. Kfouri começou na editora Abril em 1970, dirigiu a revista Placar em 79 e 95 e a Playboy, ao mesmo tempo, de 90 a 94. Concedeu-nos a entrevista que segue abaixo no estúdio da CBN em São Paulo, onde faz um programa diário, das 20h às 21h

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
Silvio Anunciação

O que você está achando do novo regulamento do Campeonato Brasileiro?
Eu, durante a minha vida inteira, briguei por essa forma de pontos corridos. É a fórmula esportivamente mais justa, a que garante que o melhor ganhe. Por ser a fórmula esportivamente mais justa, é a melhor fórmula do ponto de vista da rentabilidade. Desde que bem feita. O problema é que nós estamos fazendo um campeonato com pontos corridos aparentemente pra sabotar a fórmula. 24 times é muito. Com pontos corridos, no máximo se faz com 20 clubes. O ideal seja 18, mas 20 ainda é suportável, com 4 caindo pra segunda divisão. Os 4 primeiros garantidos na Libertadores e os subseqüentes garantidos na tal Copa Sul-Americana. De maneira que se faça para que haja luta pelos 10 primeiros lugares e haja luta para fugir do rebaixamento. Aí mantém interesse no campeonato o tempo inteiro. Isso não se fez aqui. Agravado ainda por essa coisa do campeonato não parar quando a seleção se reúne. Num campeonato de pontos corridos, quem perder um jogo pode perder o título. Não se esqueça de outra coisa, que a fórmula de pontos corridos tem como vantagem: garante a atividade do clube durante todo o período. Ninguém morre antes e fica três meses pagando salário sem competição.

E o Estatuto do Torcedor?
É um instrumento absolutamente valioso, que dá ao torcedor brasileiro o status de cidadão. O torcedor tem agora a arma pra fazer funcionar, que é através da justiça, por intermédio do ministério público. É claro que nem todo mundo vai entrar na justiça, mas alguns já estão indo atrás e até ganhando. Isso é o suficiente pra fazer a cartolagem ficar com medo e fazer as coisas como se deve fazer.

Parece que está havendo uma decadência dos cartolas, principalmente no Rio de Janeiro. A atuação dos cartolas está tendo reflexo nos clubes agora, coisa que antes não acontecia…
(Interrompendo) Na verdade, acontecia. É que agora está muito escancarado. Três times do Rio têm dirigentes que se supunham de “novo tipo”, mas que se deixaram levar pelo velho regime. A situação do futebol brasileiro é aquela velha piada: na criação do mundo, quando Deus resolveu fazer o Brasil, já tinha feito a Europa, e tava lá desenhando o Brasil, na frente dos alemães, italianos etc., e disse: “Agora eu vou fazer um país lindo, com uma costa enorme, sem problemas de vulcões, terremotos, maremotos, um país de natureza farta, e vou por lá os melhores jogadores do mundo.” Aí os italianos reclamaram: “Pô, um país sem terremoto, com natureza farta… e ainda com melhores jogadores do mundo?” E Deus falou: “Ah, você vai ver os cartolas que eu vou por lá, vão ser os piores.” E cumpriu. Essa é a nossa tradição: nós temos os melhores jogadores e os piores cartolas. Se a gente tivesse cartolas do nível dos nossos atletas, teríamos aqui a NBA do futebol.

Como o futebol pode ser bem explorado? Você é a favor do clube-empresa?
Sou. Não vejo outra saída. O clube-empresa tem o quê de auspicioso? A necessidade de transparência, a gestão competente, a possibilidade de você demitir o cartola que não está cumprindo o combinado. E que esse cara seja bem pago, bonificado pelos títulos que ganha e, eventualmente, até comissionado por uma venda que faça; eu não sou contra, teoricamente, isso. Eu sou contra que isso tudo aconteça sem que nada seja dito. E os clubes estão falindo e os cartolas, milionários.

Fale um pouco da reeleição do Ricardo Teixeira (presidente da CBF). Ele falou que não ia mais se candidatar…
Isso nem entra em discussão. Porque o que ele fala ou deixa de falar (pausa)… O cara que fez o papel que fez na CPI, você espera o quê? Quem assistiu ao depoimento dele viu que ele mentiu o tempo todo, vacilou dez vezes, prometeu documentos pra dali a 24 horas e nunca levou.

Quando você trabalhava na “Folha de S. Paulo”, você foi barrado, pela Fifa, da Copa de 98…
Aquilo foi uma burrice deles, né? Porque eles transformaram uma questão que era pessoal, referente às minhas denúncias em relação à CBF e ao genro (Ricardo Teixeira) do então presidente da Fifa (João Havelange), numa questão internacional. Na hora que eles mandaram a carta pra “Folha” dizendo que infelizmente não havia condições de me dar a credencial para a Copa, virou uma crise internacional. Órgãos do mundo inteiro em defesa dos jornalistas se manifestaram, a ponto de, tão logo a Fifa ter percebido a bobagem, quatro dias depois, eles mandaram outra carta pra “Folha”, dizendo que eu poderia ir que seria credenciado. Ao chegar no posto de credenciamento em Paris, tinha TV alemã, sueca etc., me filmando. Quem eu era? Um jornalista brasileiro, com pouca expressão, podia até ter alguma expressão aqui no Brasil… e me transformaram numa estrela. Porquê? Porque não havia o que justificar não me dar uma credencial. Eu já tinha feito a Copa de 82 e 86, como diretor da “Placar”, e a de 90 e a de 94 com a “Placar” e como comentarista da “Globo”. E em 98 eu tava trabalhando na “Folha”, o jornal de maior circulação no país. O que justificava que eles tivessem me dado quatro vezes o credenciamento e não me dessem na quinta?

Quantos vezes você já foi processado?
Ah, eu parei de contar. Mais de cem. Infelizmente, mais de cem.

Você perdeu algum?
Tem três ações cíveis (criminais nenhuma, eu ganhei todas), que são ações mais complicadas do ponto de vista do julgamento, porque ação cível é só a multa em dinheiro, e como a CBF tem grande influência nos tribunais do Rio…

A CBF?
É… porque a CBF promove os vôos que os desembargadores dão pra Copa do Mundo com suas mulheres. Pra vocês terem uma idéia, eu fui condenado numa ação cível do Ricardo Teixeira, em que ele me processou porque eu disse que ele havia dado uma entrevista pra revista “Playboy” sem se preocupar com a verdade e nem com a ética. E dizia porquê: a respeito da verdade, ao dizer que o Pelé não ajudou a elegê-lo da primeira vez; sem se preocupar com a ética ao dizer que é absolutamente normal que a empresa de laticínios dele venda seus produtos para a CBF. Ele ligou pra mim dizendo que ao dizer que ele deu uma entrevista sem se preocupar com a verdade e a ética, eu estava chamando ele de não-ético e mentiroso. Eu fui absolvido em primeira instância. Eles recorreram. No tribunal, o advogado dele me disse o seguinte: que eu era um cara que vivia falando mal da justiça carioca e que eu vivia criticando a justiça esportiva da CBF. E a justiça esportiva da CBF tinha dois desembargadores, e, portanto, como eu criticava a justiça esportiva do Rio, eu estava criticando os pares daqueles que iam me julgar. E os dois me condenaram a 500 salários mínimos. Está em recurso em Brasília, eu tenho esperança de que isso seja revogado.

(…)

E existe essa idéia de que o narrador de esportes no Brasil é o narrador de cerimônias, né? Um levantador de auditório.

Você não gosta?
Não, eu gosto mais de outro estilo.

Galvão Bueno, então, nem pensar?
Não, não. Eu não gosto nem que se berre o gol. Eu, se tivesse uma televisão, o meu narrador não narraria gol. Ninguém berra o gol quando está no sofá vendo jogo. Quando berra o meu, é assim: “Gool! Golaço, baita gol! Gol de placa!” E não aquela coisa: “Gooooooooooooooollllll…” Às vezes você tá de madrugada vendo futebol, como foi na Copa, e é aquela gritaria de gol toda. Ninguém, no basquete, fica gritando “Ceeeeeeeeessssssstaaaaaaa!” Entende? Eu tô vendo, pô, não precisa narrar isso assim, não precisa me trazer a emoção. Eu acho que é forçar a barra. Gosto de uma coisa mais conversada. Agora, o problema maior da televisão não é esse, é a promiscuidade…

A Globo compra os direitos da CBF e fica presa…
Isso. Quando você compra os direitos de transmissão, você não se torna sócio de quem você comprou. Por exemplo, eu compro esse teu gravador aí (que está gravando a nossa conversa), e não te devo nenhuma obrigação. Não preciso ficar falando bem de você, só porque você me vendeu o gravador. Você não pode confundir o departamento de eventos com o de jornalismo. E isso sem falar na proliferação de jornalistas que você não sabe se são jornalistas ou se são garotos-propaganda, promotores de evento, empresários de atletas. Deste mal, sejamos francos, a Globo não compadece. E isso é uma coisa que me custa enorme antipatia entre os coleguinhas, mas que é um escândalo.

Você já foi convidado pra fazer propaganda?
Um milhão de vezes. Agora mesmo acabam de me convidar pra fazer pra Nestlé um comercial que juntava eu e não sei quem…

Juntar?
É, não tem aquele coisa de juntar concorrentes, tipo Faustão com Gugu?

E juntar você e quem?
Ah, essa gente aí que eu não vou nem citar.

Milton Neves?
É, essa gente aí… essa gente.

Esses dias saiu um texto seu no “Lance!”, falando dele. Você falava que ele te elogiava…
Sim, porque ele sempre tentou fazer confusão, usando o meu nome. Um belo dia me encheu o saco e eu escrevi um texto dizendo que nós não somos da mesma turma.

Ele te elogiava e depois pedia uma retribuição?
É isso. Ele queria dizer: “Ó, vamos mostrar que a gente é amigo.” É aquela coisa marqueteira, isso não é jornalismo.

É, ele tem três programas de TV: um de esporte, um policial, e um de “famosos”…
O senso ético dele tá lá… (pausa) No programa policial que ele faz, ele mostrou um suicídio, ao vivo, depois entrevistou a mãe de uma moça estuprada e a mulher do estuprador… Bom, falemos de outra coisa.

Você é contra as torcidas organizadas?
É uma coisa que está aí. Não tem como você coibir… não é com proibição que se resolve, como se fez aqui em São Paulo. Até porque quem entra na justiça acaba ganhando, porque não se pode impedir que o cara vá ao campo de futebol com a camisa da Gaviões, da Independência ou da Mancha Verde. Eu não gosto, em tese, de torcida organizada. Eu sou corintiano, eu não sou da Gaviões. Eu canto o hino do Corinthians, não o da Gaviões. Essas torcidas no Brasil são seitas. A torcida organizada tem outro lado, indubitavelmente, da coreografia, da beleza etc. Mas o fato é que vira e mexe dá violência. Não tem como controlar. Pra controlar, tem que ser feito o que se fez na Inglaterra. O Relatório Bailey, nos anos 90, estudou a situação da violência no futebol inglês e tratou de identificar essa gente toda e começou a punir. “Você, durante dois anos não pode ver o jogo do Manchester. Vai vir aqui na delegacia todo domingo… vai lavar parede, banheiro…”

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 14, julho de 2003)

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