Marcelo Tas

Homem-multimídia
Diretor, apresentador e roteirista de TV. Realizador dos programas Rá-Tim-Bum, Castelo Rá-Tim-Bum e Vitrine, todos da TV Cultura. Co-produtor do Programa Legal, da TV Globo. Responsável pela renovação da linguagem televisiva nos anos 80, com a fundação da produtora independente Olhar Eletrônico e de seu personagem ficcional Ernesto Varela (o repórter de mentira que fazia perguntas inesperadas para os personagens da história de verdade). É basicamente esse o currículo deste homem multimídia Marcelo Tas, 44, atualmente apresentador do programa Vitrine, que vai ao ar toda quarta, dez e meeeia da noite, na TV Cultura. Na conversa, por telefone, Tas falou sobre a TV Cultura, a crise da mídia, ética no jornalismo e audiência na TV brasileira

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
Silvio Anunciação

O Vitrine foi um dos primeiros a tratar de Internet e outras mídias na TV aberta. Que balanço você faz desses anos de programa?
Quando eu cheguei na Cultura, foi justamente a fase em que a emissora estava interessada em dar uma atualizada no programa e começar a falar em novas mídias. Isso em 98. Me lembro que na época todo mundo achou aquilo muito exótico. Muita gente achava que Internet não ia pegar. E a gente foi o primeiro programa que falou dessa revolução, de novas mídias e de tecnologias digitais. Essa oportunidade foi muito especial, de tratar disso num veículo de tanta audiência. Na última pesquisa feita pelo programa, a gente tem um público de classes C e D, que encontra no programa uma oportunidade de ter acesso à informação que ele não tem na vida cotidiana ou através da escola, dos jornais ou revistas. Então, o Vitrine tem um papel importante, principalmente por estar numa emissora pública, de poder servir como uma fonte de informação que ficou um tempão sendo exclusivo da elite. Aliás, até hoje tem gente que acha que essa informação não interessa às classes menos favorecidas. Ouvimos muita bobagem, que “antes precisa cuidar da fome e do saneamento básico” e enquanto isso essas pessoas não devem ter acesso à informação. Acho que tem de ser feito tudo junto; sem essa informação, as pessoas vão estar cada vez mais excluídas do processo de cidadania.

Fala-se que a audiência da TV Cultura é baixa. É baixa mesmo?
A conversa sobre audiência é muito precária no Brasil. A TV Cultura, por exemplo, tem uma audiência, pra uma emissora pública, extremamente elevada. Se você comparar a Cultura com a Globo, você vai cair nessa conversinha que geralmente está nos jornais. Mas, se você comparar a audiência da Cultura com a audiência das TVs públicas de outros países, você verá que a TV Cultura tem uma audiência elevada. Uma outra coisa: a Cultura é sempre assunto de qualquer discussão sobre televisão. Nesses últimos 15 anos, a Cultura criou um padrão de televisão, o que é coisa rara em uma emissora tão pequena em termos de recurso. A Cultura está em São Paulo, mas atinge todo o Brasil por conta dos seus méritos e da sua audiência. Ao contrário do que se diz , a audiência da Cultura foi o fator que  alavancou sua importância nacional. Eu estava olhando a planilha do Ibope e a Cultura, em alguns momentos do dia, chega a ser terceira emissora de audiência, com a programação infantil. O que é uma coisa espetacular: ela só fica atrás da Globo e do SBT. Além disso, se você olhar para o poder de influência dela – que não se mede só em números – os méritos da TV Cultura são ainda maiores.

Justamente por causa da credibilidade…
Credibilidade é uma palavra muito importante nos dias atuais em que os meios de comunicação se multiplicam. Você tem hoje muitos canais, mas fica parado com a sua atenção focada naqueles que você acredita. Nesse ponto, a Cultura é uma emissora privilegiada. Um entrevistado no Roda Viva, por exemplo, gera um número de e-mails e influência na opinião da sociedade muito maior do que alguém que vai dar uma entrevista no Domingão do Faustão. O Domingão é um programa que você assiste e, geralmente, está dormindo com a TV ligada, está ouvindo música ou passando o aspirador de pó (risos). Isso é um fator importante que os meios de medição de audiência ainda não estão preparados. Como você vai medir o grau de atenção de alguém que fica ligado nesses programas de fofoca da tarde, por exemplo? Quanto da atenção daquela pessoa está dedicada ao programa? Essa é a próxima discussão, porque os meios digitais já permitem este tipo de avaliação. Na Internet, por exemplo, você valoriza um site não só pelo número de visitas, mas pelo tempo que a pessoa percorre na página. A mesma coisa acontece com a TV interativa, nos EUA. Você consegue quantificar o interesse do telespectador pelo volume de downloads que ele dá num determinado programa.

Diante dessas considerações e a má interpretação da audiência, como pode-se explicar, então, a crise na Cultura?
Olha, a crise da TV Cultura é a mesma crise da TV Globo, que é a mesma da Editora Abril, que é a mesma da “Folha de São Paulo”, que é a mesma do “Estadão”. Então, as pessoas ficam falando da crise da TV Cultura como se o Brasil estivesse navegando num céu azul. Não existe a crise da TV Cultura, ou ela existe junto com todas as outras crises. A crise da Cultura é uma crise de dinheiro. Eu não sei se o jornal de vocês está em crise, mas o mundo está em crise financeira.

Mas a Cultura já esteve melhor, né?
Ué, a Globo já esteve melhor também. A Editora Abril também. Ela nunca esteve implorando por dinheiro como está agora ou mandando gente embora. A “Folha de São Paulo” promoveu 16 cortes nos últimos três anos, reduzindo as pessoas a um nível radical. Qualquer veículo de comunicação dá para usar essa frase que você acabou de falar: todos eles já estiveram melhores. Agora, sem fugir da sua pergunta, a TV Cultura teve dois anos bastante difíceis, o ano passado e o retrasado. Este ano a gente já começou num outro horizonte. A Cultura já está totalmente saneada em termos de dívidas a curto prazo, muito mais que todos os outros veículos que eu já mencionei. E hoje ela tem um orçamento aprovado para 2004 e várias iniciativas de muito sucesso, do final do ano passado pra cá.

Há algum tempo cogitou-se que o Vitrine poderia sair do ar. Como ele está hoje?
O Vitrine é um dos programas que está na nossa grade de 2004. Estamos preparando o começo do Vitrine 100% inédito para abril. O programa foi um dos que ganhou  incremento de equipe e recurso.

Você foi um dos membros fundadores da produtora Olhar Eletrônico, uma das pioneiras na renovação da linguagem televisiva dos anos 80. Lá, você dirigiu e interpretou o repórter Ernesto Varella, junto com um câmera chamado Valdeci, interpretado pelo  Fernando Meirelles. Como surgiu a idéia de fazer isso?
Surgiu da nossa total inexperiência de fazer televisão. Eram vários artistas ali, todos muitos jovens que não tinham domínio de nenhuma gramática televisiva e aí a gente acabou inventando um jeito de fazer. Fomos sortudos em termos pessoas que nos acolheram e nos recomendaram fazer o programa. Na Olhar, nós nos aglutinamos em torno de uma câmera e uma ilha de edição, que era um item raríssimo no início dos anos 80. Todo mundo tinha uma participação criativa em cada etapa do processo. E o diferencial vinha daí. E isso está impresso quando vejo um filme como o “Cidade de Deus”, que tem essa gramática da Olhar Eletrônico, quando vejo o “Rá-Tim-Bum”, que o Meirelles foi o diretor também, com o Paulo Moreli e comigo. Os projetos mais felizes são sempre aqueles que apostam na inteligência do público, na vontade de ver coisa nova.

Como você vê a criatividade na televisão brasileira atualmente?
Quem investe em criatividade nunca sai perdendo. O que me espanta um pouco é que, ao invés desse investimento partir de quem está atrás, ele tem partido de quem está na frente. A Globo, pra mim, é, hoje, quem mais investe em programas inovadores, o que explica o sucesso dela. Eu não entendo, justamente, porque emissoras como o SBT, que poderiam estar investindo em programas para surpreender a audiência, tem procurado o caminho contrário, que é reprises, programação mexicana ou programas manjados. O caminho da televisão é a criatividade e a inovação. É isso que o povo quer ver.

Além dos programas da Cultura, há bons programas?
Olha, a televisão, assim como a vida, tem sempre 5% de coisas boas. Se você pegar o seu dia e tiver a sorte de ter 5% de coisas boas, você será bastante feliz. É mais ou menos a margem de coisas boas que têm numa banca de revistas, no lançamento de filmes e é um pouco do que acontece na sua vida, ou seja, você conhece um monte de pessoas e 5% são legais. Eu adoro Os Normais, o Casseta e Planeta, o Rock Gol, da MTV, gosto de documentários, telejornais, enfim… O Fantástico é um programa que tem 5% de coisas boas.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 21, março de 2004)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s