Ricardo Amorim

Brasil: melhor período da história, porém incapaz de ditar o próprio destino

Abril de 2011 – publicada original no boletim do Sescon Campinas

Quais são as possibilidades de a inflação voltar? O Banco Central agiu de forma correta ao diminuir de uma forma menos agressiva os juros e deixar a inflação correr um pouco mais solta para manter um crescimento maior? Quais as perspectivas do Brasil nos próximos anos?

Para responder a estar e a outras perguntas, o Boletim Sescon Campinas entrevistou o economista Ricardo Amorim, presidente da Ricam Consultoria (www.ricamconsultoria.com.br) e comentarista do programa Manhattan Connection (GloboNews, domingos às 23h).

Para o economista, o BC deveria ser mais enérgico ao lidar com a inflação. Com relação ao futuro, Amorim afirma que “o cenário externo, ao longo das próximas décadas, nos é tão favorável que nós estamos quase que condenados a dar certo” e que, do ponto de vista da geração de oportunidades, a década será a melhor da história brasileira. Porém faz o alerta: “A gente continua a ser incapaz de ditar o próprio destino”.

Por Carlos Eduardo Moura

É possível crescer com taxas boas e a inflação um pouco acima da meta?
A primeira coisa que temos de fazer é definir o que são taxas boas de crescimento. E aí é preciso olhar por uma perspectiva histórica. O Brasil sustentou, durante 80 anos, do início do século XX até 1979, uma média de crescimento de 7% ao ano.

Aí veio a inflação.
Sim, também. A partir da década de 1980 até 2003, houve duas coisas. Primeiro a aceleração da inflação, até 1994. Depois, crescimento contínuo muito baixo. O crescimento médio durante este período foi de 2,4% ao ano. De 2004 pra cá, o crescimento brasileiro dobrou. E isso com inflação dentro da faixa da meta a maior parte do tempo. Eu acredito que o Brasil tem condições de sustentar crescimento próximo a 5% sem gerar pressões inflacionárias.

Mesmo hoje?
Neste momento específico, isso não é verdade. Não é verdade pelo seguinte: o Brasil está desacelerando de uma taxa de crescimento que foi maior que 5%. Por conseqüência, a gente teve pressão inflacionária, causada pelo crescimento acelerado. Além deste quadro de inflação de demanda, a gente está tendo um impacto de uma inflação de oferta, que se soma à alta dos preços dos alimentos. Hoje, para que a inflação fique na meta, a taxa de crescimento teria de ser menor do que 5%. O governo está fazendo uma opção que é a seguinte: vamos desacelerar mais lentamente, aceitando que a inflação permaneça em níveis mais elevados por um período um pouco maior. É uma opção política.

Essa opção política pode trazer que resultados? Não é arriscada?
Se for mantida por um período longo, a gente corre o risco, sim, de acabar tendo a expectativa de que a inflação vai ser mais alta porque o BC vai ser menos duro com a inflação. E, por conseqüência, a expectativa de uma inflação mais alta faz com que os agentes reajustem mais os preços e a inflação acabe efetivamente sendo mais alta. Em um segundo momento, para fazer com que a inflação volte a níveis anteriores, vai ser preciso juros mais altos do que seriam necessários agora. E aí o resultado é menos crédito e menos crescimento. É uma estratégia que traz riscos. Se for usada por um período curto e justificada por um choque de ofertas, que não se resolve com o aumento de juros, tudo bem. Agora, se isso passar a ser algo político, independentemente das causas da inflação, a gente vai acabar com um problema.

E qual é a sua avaliação sobre esta estratégia?
Na minha opinião, há um erro de estratégia, tanto econômico quanto político. Quanto mais tempo se demora a responder esse processo de elevação inflacionária, maior vai ter de ser a resposta depois. Do ponto de vista político, o melhor momento para um governo adotar medidas duras é logo depois das eleições. Então, o fato de o BC ter elevado menos os juros agora e potencialmente ter de elevar mais no futuro pode criar dificuldades políticas, que dificultarão um aumento maior no futuro. E eventualmente a gente pode estar às vésperas de uma eleição… E uma possível desaceleração da economia, que seria causada pelo aumento de juros, teria impactos eleitores importantes. Do meu ponto de vista, essa política adotada agora está errada. O BC deveria ser mais e não menos agressivo.

Você disse recentemente que esta pode ser a melhor década da história brasileira. Confere? Por quê?
Do ponto de vista de geração de oportunidades, eu acredito, sim, que esta será a melhor década da história brasileira. Quando eu falei que o crescimento brasileiro dobrou, de 2004 para cá, eu não explicitei o porquê. Isso foi reflexo de uma mudança em toda a organização da economia mundial. É o que eu chamo de nova ordem econômica global, onde China e Índia têm cada vez mais importância. O que mudou? Houve uma explosão de demanda por matérias-primas e o Brasil é um grande produtor e exportador. Isso significa mais entrada de dinheiro. Este é o primeiro aspecto. O segundo é tão importante quanto. Quando se começa a levar a produção de praticamente tudo para os países emergentes, os custos caem. E isso ajudou, ao longo da última década, em um processo de desinflação. Eu brinco que a China exporta desinflação para o resto do mundo. Com mais produtos cada vez mais baratos, isso faz com que se contrabalancem outras pressões inflacionárias. E a conseqüência é que se pode ter taxas de juros mais baixas. No Brasil e no mundo. No caso brasileiro, que tinha juros muito mais altos do que outros países, é que isso permitiu uma expansão de crédito, algo que a gente não tinha há décadas – e que por sua vez levou a esse crescimento nos setores que vendem produtos com valor unitário alto.

E o Brasil nesta história?
A gente vive em um processo favorável ao Brasil. A gente vai ter Copa do Mundo e Olimpíadas nos próximos anos, que vão atrair investimentos em infra-estrutura, que vão ajudar a exponencializar mais esse crescimento. Soma-se a isso o pré-sal. O Brasil começou também a atrair mais mão-de-obra. Muitos estudantes que estavam fora estão voltando ao Brasil, porque as oportunidades aqui são melhores do que lá fora. O país está começando a atrair estrangeiros para vir trabalhar aqui. Os cérebros que estão vindo vão ajudar neste processo de crescimento e desenvolvimento. A gente entrou em um processo virtuoso. Durante uma geração inteira, entre 1980 e 2003, a gente estava num círculo vicioso, foi uma geração perdida.

Com relação às reformas, você vê alguma luz para que elas aconteçam nos próximos anos? Qual a importância destas reformas para esse círculo virtuoso continuar?
As reformas seriam fundamentais não porque eu acredito que a falta delas vai impedir que a gente permaneça neste círculo virtuoso. O cenário externo, ao longo das próximas décadas, nos é tão favorável que nós estamos quase que condenados a dar certo. Agora, dar certo é uma história relativa. Quando eu falo que a gente tem condições de crescer a 5%, isso é bom ou ruim? Em relação ao passado recente é ótimo, é o dobro da média dos últimos 25 anos. Em relação à média de 80 anos, até 1979, de 7%, é ruim. É o copo meio cheio e meio vazio. As reformas poderiam encher mais esse copo. Com as reformas, a gente poderia sustentar crescimento de 6 ou 7% ao ano. Agora, eu sou pessimista quanto à nossa capacidade de fazê-las.

Existe um risco de desaceleração de China e Índia? Como isso afetaria o Brasil?
Imaginemos que, de uma hora para outra, e não é o que eu acredito que vá acontecer, esse movimento democrático no oriente médio se alastrasse pra China e causasse uma ruptura e a economia chinesa passasse por um grande colapso. O que aconteceria? O Brasil afundaria junto. O Brasil era uma economia extremamente dependente dos EUA. Nos últimos dez anos, o nosso círculo de dependência mudou. A gente passou a depender mais da China e menos dos EUA. Mas a gente continua, justamente pela falta das reformas, a ser incapaz de ditar o próprio destino. Nós éramos o rabo do cachorro dos EUA e agora somos o rabo do cachorro da China. Nós não somos o cachorro. Nós não estamos definindo para onde a gente vai. Nós estamos sendo levados. Por sorte, o cachorro chinês está indo para um lado que nos ajuda. Mas se ele tiver algum problema, a gente vai sentir.

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