Sócrates

Sócrates, o revolucionário do futebol brasileiro
Campeão paulista em 1982 e 1983 pelo Corinthians, o jogador Sócrates tornou-se uma das principais peças do time por liderar um movimento que ficou conhecido como “Democracia Corintiana” – uma espécie de auto-gestão em que todas as questões do clube eram decididas através do voto. Ali, no timão democrático, o reserva do reserva do goleiro tinha o mesmo peso de decisão que o presidente do clube. Sócrates, capitão do time, magro, fumante, boêmio incorrigível e avesso a treinos, tornou-se o próprio exemplo do anti-atleta mas, quando em campo, tornava-se genial. Na entrevista a seguir, ele fala sobre sua carreira e o futebol no Brasil

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
Silvio Anunciação

Como começou o movimento democracia corintiana, liderado por você dentro do Corinthians dos anos 80?
Começou numa situação de caos. Era uma época em que o Corinthians estava em crise financeira, tinha sido eliminado do brasileiro e aí houve uma mudança brusca, mudou a diretoria e entrou o Adilson Monteiro Alves, um sociólogo que nunca tinha tido contato com o futebol. E daí a gente começou a discutir uma solução para a crise do clube: criar uma comunidade em que todos participassem das decisões coletivas, uma coisa que faltava muito nesse meio e ainda falta. Nós começamos a fazer deliberações coletivas, imediatamente começamos a fazer isso através do voto e todo mundo tinha o mesmo poder de decisão dentro do clube. No início, tivemos algumas dificuldades: os jogadores de futebol têm uma formação deficiente e um vício de comportamento difícil de mexer, que é a coisa do paternalismo. Essas pessoas gostam de ser paternalizadas. Muita gente tinha também muito medo de repressão, de sofrer algum tipo de represália, mas gradativamente as pessoas foram aderindo ao movimento e em algum tempo já tava todo mundo participando e o reserva do reserva do goleiro tinha o mesmo peso de decisão que o diretor de futebol.

E hoje, se fosse para você fazer uma democracia corintiana na estrutura do futebol brasileiro, como seria?
Exatamente igual. Eu fui técnico do Cabo Frio, e havia ali uma estrutura extremamente democrática. Mas conservadora (risos). A estrutura democrática pode ser extremamente conservadora e até reacionária. Por exemplo, lá no Cabo Frio, o regime de concentração eu coloquei em discussão, mas o único voto contra foi o meu (risos).

Isso foi uma das coisas que você conseguiu mudar no Corinthians…
Demoramos mas conseguimos mudar, foi uma das lutas políticas mais interessantes daquele processo.

Porque você é contra a concentração?
A concentração não tem lógica. Tiram o jogador do seu hábitat natural e, em geral, isso faz com que ele fique mais estressado, durma mal e piore sua condição atlética. Em alguns casos tem até alguma lógica, como é o caso da alimentação. Algumas pessoas não se alimentam bem em casa, mas não precisa levar o cara pra um hotel 5 estrelas e trancá-lo lá dentro. O grande prazer quando você fica concentrado não é o jogo, é acabar o jogo pra você sair da prisão. E o tesão tem que ser o jogo, é o seu trabalho, sua arte que está ali.

Como você vê os resultados das partidas serem pré-determinados, as chamadas maracutaias do futebol brasileiro e mundial? Você já passou por alguma?
Aqui no Brasil não tem muito disso. Quando acontece é de duas equipes precisarem de um resultado em comum e aí, logicamente, o resultado acaba sendo pré-determinado. Agora na Itália, por exemplo, eu vivi uma situação de o resultado de um jogo ser forjado. A Fiorentina estava no meio da tabela e o time adversário também estava, quer dizer, não havia risco de rebaixamento de nenhum dos dois clubes. Mas acontece que na Itália existe um negócio muito parecido com o jogo do bicho, um jogo de apostas do futebol, como a loteria esportiva. Então as pessoas apostam nos resultados das partidas e se você tem uma zebra e apostou nessa zebra, você ganha muito dinheiro. Aqui na loteria esportiva, a revista “Placar” provou que tinha jogo manipulado. Bom, eu estava me preparando para o jogo no vestiário e me falaram: “O jogo vai ser empate”. Eu disse: “Vai ser empate porra nenhuma”, e fui pro primeiro tempo. Joguei meio tempo, não me passaram a bola nenhuma vez, e daí eu abandonei o jogo, falei: “Não vou fazer parte dessa palhaçada”.

E esses jogadores atuais que vivem trocando de clube?
Isso não acontece por vontade própria. Existe todo um sistema que estimula essa rotatividade, uma ignorância gerencial dos clubes. Os clubes no Brasil, ao invés de venderem o espetáculo, vendem os artistas. Se, por exemplo, eu tiver o Michelangelo sob contrato, eu não vou vender ele, mas sim a sua obra. No Brasil ninguém nunca soube vender o espetáculo e as conseqüências disso estão muito expostas. Quanto, em percentual, a bilheteria dá de recursos para o clube? Não chega a 10%. Os clubes não sabem explorar isso. Outra coisa é você vender o ídolo de um clube. Pra construir outro demora uma década, uma geração. Isso não cai do céu. O Corinthians vendeu o Viola há uns oito anos, que era a cara do clube. Vendeu por uns 8 milhões, mas gastou 40 tentando substituí-lo. O cara não tem noção de quanto o ídolo vale porque ele não sabe explorar isso. Agora, essa coisa do jogador empregar algum tipo de afetividade com o clube é de uma burrice, ignorância e hipocrisia absurda.

Você fumava, bebia, não suportava concentração, tinha pé pequeno em relação à altura e ainda estudava medicina. Você não era um exemplo de desportista e acabou virando um craque. Geralmente o grande jogador de futebol é aquele cara que vem de uma família pobre, que não tem estudo e que só sabe fazer aquilo. Você foi uma exceção?
Numa sociedade como a nossa, que não tem educação, isso é natural. Todo mundo que tem um pouco de discernimento é uma exceção nesse país.

Mas o cara que tem discernimento e é um craque é a exceção da exceção, não é? Mas o futebol é a cara do país, só que tem muita gente que não quer enxergar. O nível de ignorância que existe no futebol é o mesmo da sociedade brasileira. Eu sou exceção porque eu pude estudar, meus pais me deram esta oportunidade. Meu pai não estudou, tinha o primeiro ano do primário incompleto e foi autodidata em tudo e só conseguiu estudar quando estava estabilizado. Ele fez a faculdade junto comigo. O meu nome, por exemplo, vem do autodidatismo do meu pai. Ele tinha uma necessidade absoluta de conhecimento, ele queria sair da merda que nasceu. E conseguiu. Na época ele estava lendo a “República” de Platão e deu o nome para os três filhos: Sócrates, Sófenes e Sófocles.

Você tem algum ídolo no esporte?
Não, no esporte não. Meus únicos ídolos foram o Che Guevara e o John Lennon.

Você estava dizendo que as pessoas não conseguem entender que a deficiência cultural dos jogadores é a própria realidade brasileira. Com base nisso, pode-se dizer que o futebol sofre de preconceito e é estigmatizado, já que o senso comum apresenta o jogador como um cara que é burro?
É a realidade. Além disso, o meio restringe o acesso à informação e ao conhecimento. O meio é conservador e o cara não pode ter muito conhecimento. Pra você oprimir alguém você tem que simular a deseducação e a desinformação. É assim que funciona o processo ideológico dentro do futebol. É a realidade brasileira com mais um estímulo. Quanto mais ignorante, mais ele é valorizado, tanto que são estimulados a deixar de estudar.

Você tem algum plano de colocar sua visão de futebol em algum clube?
Ninguém me quer (risos). Eu sou um revolucionário. Quem vai me contratar? Você está maluco? (risos) Nem lá no Cabo Frio, que é um time pequeno, eu consegui ficar. Eu fiquei sete meses e quando consegui botar o time na primeira divisão do estadual, fui demitido. Fiquei dois jogos na primeira divisão porque tinha a mídia do lado e as coisas que eu estava fazendo começaram a aparecer.

Mas o que falaram para você quando te demitiram?
O motivo para a minha saída é básico. Quem bancava o clube era a prefeitura, era ano eleitoral e o objetivo era ter algum tipo de prestigio político com o clube. Eu estimulava, como técnico, as pessoas a lerem. Comecei a criar programas educativos dentro do clube. E tudo isso incomoda todo o sistema, não só o do Cabo Frio.

O que você acha dessa alta rotatividade dos técnicos brasileiros? O time começa a perder e o primeiro do clube a ser demitido é o técnico…
Isso tem muito a ver com o paternalismo. Se você culpar o jogador de futebol, de alguma forma você está culpando o artista e o artista é que tem uma relação muito forte com o público. Então você está fragilizando sua relação com o público, por isso é mais fácil tirar o técnico. Quando o time está jogando muito mal, o problema é basicamente da equipe; o técnico tem sua contribuição, mas ele é contratado, ele tem que ser avaliado antes sobre sua capacidade. O problema é que quem gere o futebol não entende nada de futebol. A outra questão é que quem determina a filosofia, a estratégia, o planejamento de uma equipe de futebol é o técnico, e não o dirigente. E o técnico é, na verdade, um operacional dentro do organograma. Ele deve ser comandado, e não o comandante. É o técnico quem determina a política do clube e é ele quem é demitido a cada seis meses porque os dirigentes não querem levar a culpa. Isso é um absurdo do ponto de vista administrativo.

Parece que os clubes que mantém os técnicos por mais tempo conseguem melhores resultados…
Isso é obvio, mas só acontece quando você tem consciência plena da importância da preservação do técnico e quando tem uma comunicação bem feita com a comunidade para qual você está vendendo o seu produto. E isso é coisa rara. Quando não se tem comunicação, você sofre pressões que você não consegue resolver. E a solução encontrada pelos dirigentes é a retirada do técnico. Porque se joga nas costas dele a política temporária daquela estrutura. O dirigente se afasta da arena e joga a sua culpa para terceiros. Quer dizer, o organograma é todo errado.

Muitos dizem que se a seleção tivesse uma rotina de treinamento, ela seria imbatível, mesmo não tendo jogadores muito bons. Você concorda com a idéia de que a solução seria mais treinamento em conjunto?
Acontece que não dá, né? Vamos imaginar o que se faz no voleibol no país.  A seleção fica com o jogador por sete meses, por isso que não tem time forte. Que patrocinador vai entrar para pagar um ano pro cara trabalhar cinco meses? Se começar assim, daqui a pouco você não tem mais patrocínio e ninguém quer mais jogar aqui. O basquete já está assim. Tem campeonato aí que tem cinco times.

Falavam que você era muito frio, racional e não jogava futebol com emoção…
Eu não sou frio, mas tinha que ser no meu trabalho. Se você trabalha com cem mil pessoas do seu lado, e não souber administrar pra catalizar positivamente pro seu time, você tá perdendo uma grande oportunidade. Num time grande como o Corinthians quem ganha jogo é a torcida. O time só vai atrás. Se você levantar aquela galera, você mata o adversário. Tem que saber trabalhar isso, tem que ser cerebral, e não emotivo, porque aí você vai junto com a torcida. Talvez a minha maior qualidade era  utilizar os potenciais emocionais no jogo.

Nos primeiros 15 minutos de jogo, você sempre tentava fazer uma jogada de efeito…
Pra mobilizar a minha massa. Isso provoca um desequilíbrio no ânimo dos dois times e das duas torcidas. O futebol é um jogo psicológico, isso acontece em qualquer arte. Se você vai cantar, será que você canta do mesmo jeito com todo mundo aplaudindo e todo mundo vaiando? Jamais.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 12, maio de 2003)

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