Soninha

À frente de sua geração
Soninha Francine fala sobre a demissão da TV Cultura, por ter dito que fumava maconha, os jovens e a luta política, política e MTV

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
José Ricardo Manini
Silvio Anunciação

Você acha que sua demissão da TV Cultura foi motivada por hipocrisia?
Algumas pessoas falam que foi moralismo, mas hipocrisia é a palavra certa. Em primeiro lugar, porque eles sabem que o fato de eu fumar maconha não fazia de mim uma pessoa incapaz de trabalhar lá, uma pessoa marginal, doente. Eles sabem disso, eles me conhecem, me conheciam muito bem. Se só eles soubessem que eu fumava maconha, por exemplo, eles não iam se importar nem um pouco com isso. Porque eles iriam saber que o meu trabalho não é nem um pouco afetado, nem o meu trabalho, nem os meus valores morais, nem nada mais. É hipocrisia também porque a maioria das pessoas ali, como em muitos outros lugares, ou já teve algum contato com maconha durante uma fase da vida ou ainda tem, e até com outras drogas. Então, o que eu falo não é uma acusação, é uma constatação. É o tipo de que coisa que acontece no mundo e que as pessoas continuam fingindo que não acontece. Não é a informação de que eu fumo maconha que chocou o meu chefe na TV Cultura, não foi isso. O que acontece é que eles iam ter muito trabalho pra justificar a minha presença, pra comprar essa briga e ficar do meu lado. Então eles preferiram limpar a própria barra imediatamente, cancelar qualquer associação que eles tivessem comigo. E tem mais um motivo pra eu dizer que isso foi hipocrisia: eu duvido que eles concordem com a situação que a gente tem hoje. Eu duvido que eles achem justo que maconha seja uma substância ilícita. Que um usuário de maconha possa ser detido e preso por causa disso. Eu tenho certeza que eles concordam comigo. Que eles acham um absurdo considerar crime o uso de maconha, enquanto está todo mundo fumando, e a única coisa que acontece na prática é que se a polícia pega você com maconha, você faz um trato ali, faz um arranjo com eles e acabou, entendeu? A menos que você esteja totalmente sem grana. Eles preferem deixar como está e torcer pra que um dia, numa conjunção de fatores, as coisas mudem.

Hoje, passado o episódio todo, houve algum ponto positivo?
Teve, mas não exatamente pra mim. Quando eu decidi falar sobre isso, eu não estava pensando no que era bom pra mim, porque o bom pra mim era não falar nada, era deixar as coisas como estavam e não arrumar sarna pra se coçar, entendeu? Então teve um lado bom pra discussão, porque até hoje, ou as pessoas me procuram ainda pra falar sobre isso, pra participar de um debate, ir numa escola, numa associação de classe, num programa de televisão, ou eu fico sabendo que alguém está discutindo em algum lugar sobre o que aconteceu. Isso tinha que acontecer alguma hora, pras pessoas começarem a olhar pro próprio umbigo, pro próprio filho, pro passado e admitir que um monte de gente fuma maconha.

Mesmo lidando com as drogas, você consegue passar uma imagem muito mais de credibilidade do que de ser uma pessoa polêmica. De onde vem essa credibilidade?
Eu acho que, talvez, pelo tempo. Quando as pessoas podem te ouvir durante muito tempo, elas acabam formando uma opinião mais verdadeira, do que se ela te ouvir uma vez só e nunca mais… Eu acho que todo mundo que está durante muito tempo na mídia falando sobre um assunto acaba tendo alguma credibilidade. Tem um pouco esse efeito da insistência. Por exemplo, o cara vê Jornal Nacional todo dia há trinta anos, pô, Jornal Nacional é um fato, “é verdade e pronto”. Então, tem um lado que nem depende de mim, da minha qualidade, se eu falo a verdade ou não. Você está na TV de novo e de novo e de novo e de novo, e as pessoas se acostumam com você, e talvez te atribuam essa qualidade, credibilidade, que não é nem mérito meu, é um efeito que a TV acaba tendo sobre as pessoas. Agora, pensando no que pode ser mérito meu, talvez seja o seguinte: por onde eu passei, eu sempre fui briguenta. Quando estava na MTV, eu brigava, fazia questão de falar de muitas outras coisas e não só de música. Eu não chegava lá e falava “boa noite, vamos ver o clipe tal”. Eu preferia “boa noite, eu acho que vocês, como eu, estão chocados com o que aconteceu na Febem Imigrantes hoje à tarde. Não dá pra chegar aqui, apresentar um clipe, e não discutir esse assunto. Eu acho que a gente tem que discutir essa história, não é possível, não está funcionando, sabe?” Então, é um pouco disso.

A respeito da geração jovem e a luta política, ao longo da história, até que ponto você acha que os jovens estiveram verdadeiramente engajados ou foram “na onda”?
Eu acho que tem uma porrada de mitos sobre esse assunto. Conforme passa o tempo, tem gente que é sempre saudosista, que sempre generaliza as coisas à distância e vai chegando a umas conclusões erradas. Então, uma delas é o mito da década de 60, que todo mundo era engajado, que todo mundo se interessava e discutia política. Todo mundo coisa nenhuma. É lógico que na década de 60 existia gente alienada, que não tava nem aí pra política, pra ditadura, pra coisa nenhuma. Tinha gente jovem e reacionária, que achava que tem que ter milico mesmo, tem que botar ordem. E tinha as pessoas engajadas. E até entre as pessoas engajadas, que lutavam por liberdade, por mudanças, também existia gente que ia no embalo, que saia pra rua, ou participava de algum movimento, mesmo sem saber o que estava fazendo ali. É tipo hoje, você sai numa passeata contra Alca, por exemplo, e aí o cara nem sabe direito o que é a Alca. Ele sai na rua porque ele tem uma insatisfação, ele quer reclamar de alguma coisa, ele tá puto, mas às vezes ele também não sabe o que tinha que mudar e como. Eu tenho certeza que nos anos 60 isso também acontecia no meio do movimento. E isso não significa desvalorizar as pessoas que lutaram naquela época, não significa desmerecer a luta. Mas só tentar enxergar as coisas com mais complexidade e com menos simplificação. Aí passa um tempo e a gente chega nos anos 80, e dizem: “Ah, essa juventude, não entende nada de política, é alienada, é isso e aquilo…” Aí tem o movimento dos caras-pintadas, e na época as pessoas diziam, com toda razão, que uma parte não sabia nem o que estava fazendo ali.

Mas isso acabou servindo de alguma forma, né?
Sim, claro, isso foi importante pra criar uma pressão sobre os congressistas, porque uma porrada de congressista só votou a favor do impeachment do Collor porque era a atitude mais popular no momento. Com certeza teve isso. Mas eu queria voltar a questão dos caras-pintadas, que eu ainda acho importante. Hoje em dia, até os caras-pintadas já abriram uma comparação pra dizer: “Naquela época, as pessoas saíam na rua pra derrubar o presidente. E hoje, tão fazendo o que? Foi-se o tempo que a galera tomou a rua porque o presidente era corrupto.” Então, calma lá, tem de tudo, porque a população cresceu muito e as coisas mudam muito rápido.Você tem outro tipo de ativismo hoje em dia que é esse de ONG, de arregaçar a manga e ir lá tentar mudar o negócio de várias maneiras. Tem as atitudes mais imediatistas, até as que visam um investimento em médio-prazo em educação, em conscientização… O que é pior, pra mim, em termos de alienação, hoje, dos jovens, é o cara que não faz a mínima idéia do que ele quer da vida. Isso eu acho lamentável. O problema é que a gente tem hoje em dia uma multidão de jovens alienados que não sabem nem o que quer, que não tem sonho nenhum, nenhum sonho babaca e medíocre. Sabe, do tipo “eu quero meu carro, minha casa e acabou”. Nem esse sonho, nem um sonho alienado, do tipo “eu quero ser jogador de futebol”, “ganhar muita grana e parar de estudar”. Eu via muito isso lá na TV Cultura, no público que participava do programa, gente de periferia, de escola pública e tal. Eles não têm sonho nenhum, nem sonho medíocre. Você pergunta pros caras, “quando você terminar a escola, o que você quer da vida? Com o que você quer trabalhar?” Eles respondem que não sabem, não tem nenhuma idéia. O cara podia falar, sei lá, qualquer coisa, futebol, surfe, pagode…

Qual o porquê disso?
Se tem uma coisa na qual a nossa sociedade investiu nos últimos anos foi em consumo e sucesso financeiro. Essa é a prioridade. Como você define classe A, B, C e D, normalmente? Por padrão de consumo. Você aplica um questionário que pergunta quantas geladeiras você tem na sua casa, quantos aparelhos de rádio, quantas TVs… Tem alguns organismos que questionam isso, ou seja, o método padrão não pode ser capacidade de consumo. Você mede o progresso por capacidade de consumo, por produto interno bruto. Isso é um absurdo. Então tem um monte de gente que foi educado durante muitos anos sem padrões sólidos, e você pergunta: “O que é mais importante para você?” E aí eles não vão responder.

Falando um pouco de política, você acredita que exista, hoje, alguma instituição que possa mudar alguma coisa?
Instituições, algumas. Eu ainda acredito no Ministério Público, por exemplo. Qualquer instituição terá problemas, terá os caras mais honestos, mais bem intencionados e outros mais vaidosos e mais carreiristas, mas o que o Ministério Público tem feito no Brasil nos últimos anos é admirável. Eu acredito também em alguns partidos, mesmo que tenham muitos problemas. Eu acho que o PT, por exemplo, tem muitos problemas: conflitos ideológicos internos, de tradições, pessoas muito diferentes entre si no comando etc. Mas, ainda assim, ele se constitui um partido, não é apenas uma sigla, não é uma união de pessoas com fins eleitorais. Até um cara de extrema direita deve concordar com isso. O PT tem algumas prioridades nas quais eu acredito – por exemplo, prioridade pra mim não é quitar o pagamento dos juros da dívida externa, mas sim quitar a dívida com quem mora e vive como um bicho. Se é o Lula ou o Suplicy que será o candidato (à presidência), não faz muita diferença pra mim, porque eu voto no partido, pois confio nele para escolher os ministros, os secretários, pra compor uma base de apoio na Câmara. Mesmo que você tenha que fazer uma concessão ali, não vai comprar votos, não vai ferir alguns princípios que não podem ser quebrados para obter uma votação favorável. O PSDB tem algumas prioridades bem parecidas com as do PT – educação, sociedade, mas não é um partido no qual eu confio, mesmo porque negocia coisas que não deveria chegar a ponto de negociar. E você pode confiar no PFL, pode confiar que eles vão agir segundo interesses que certamente não são os meus? (risos). É um partido coerente na falta absoluta de trabalhar para uma causa social. Se a pessoa faz parte do PFL, eu já sei que dificilmente eu concordaria com ela. Embora ali também haja pessoas honestas e bem intencionadas que façam um trabalho legal. Mas eu não entendo como essas pessoas podem viver dentro de um partido que é totalmente casuísta, eleitoreiro, agarrado no poder e associado a tanta gente desonesta e mal intencionada.

A MTV vem sofrendo uma série de mudanças para tentar atingir um público maior. Como a vê hoje?
Acho que a MTV perdeu uma identidade que ela lutou muito pra conseguir. Do mesmo jeito que eu enxergo a sociedade como algo muito complexo e fragmentado, a MTV ainda tem coisas diferentes. A MTV tem João Gordo, que é do caralho. É totalmente independente, contestador, inteligente e ainda underground. Então, ainda há outras informações sobre cultura pop e música que eu só encontro na MTV. Algumas ousadias como os reality shows que eles passam são mais legais que os outros… Ela está cheia de experimentações de linguagem, maneiras de fazer TV que não se adaptariam em outros canais, não segue muito o padrão de apresentadores, ainda tem muita informação legal. Mas a intensidade que tinha, não tem mais. A MTV começou no Brasil como sinônimo de coisa fútil, idiota, alienada e quem trabalhava lá lutou muito pra fazer dela uma emissora realmente alternativa, engajada, contestadora. E conseguiu. Só que essa imagem se desfez por manobras mal feitas. Como quando resolveu anunciar, aos quatro ventos, em uma coletiva, que seria mais popular atingir a classe C e D e por isso começaram a tocar pagode. Foi uma cagada estratégica porque as pessoas nem viam MTV direito e saiam dizendo que ela só tinha pagode. No meu programa de noite não passava. Mas a MTV nem pode reclamar que as pessoas entenderam errado, já que foi exatamente isso o que ela disse. Foi ela quem vendeu que ia tocar pagode, ia passar axé, e ia, por isso, atingir a classe C. Como se só a classe C gostasse de pagode. Foi uma grande besteira, causou um dano difícil de consertar.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 1, maio de 2002)

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