Ziraldo

A resistência de Ziraldo
Na década de 70, junto com Jaguar, Millôr, Ivan Lessa, Paulo Francis e outros jornalistas, Ziraldo foi um dos homens responsáveis por fazer um dos maiores jornais de resistência durante a Ditadura Militar. Passados mais de 30 anos, ele relança o Pasquim. Na entrevista, além de falar um pouco sobre seu jornal e seus livros, fala também sobre educação, sociedade de consumo e eleições

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
José Ricardo Manini
Silvio Anunciação

Fale um pouco dos seus livros e da importância do livro na sociedade.
Bom, eu relancei na última Bienal o “Livro de Receita do Menino Maluquinho”, “Bonequinha de Pano”, a primeira peça que escrevi para crianças, a “Menina Nina”, que é uma conversa entre eu e minha neta, sobre a perda da vó dela, minha mulher, “A Volta do Pererê” e estou lançando o “Segredo de Mãe Dulcelina”, onde eu apresento os personagens da Turma do Pererê – que são histórias em quadrinhos que eu fazia na década de 60. Eu espero que esse livro seja economicamente viável, porque a história em quadrinhos virou uma coisa cult. Não se pode dizer hoje que é uma cultura de massa mais popular, porque a história em quadrinhos vende tiragens equivalentes a tiragens de livros. O Maurício de Souza com a Turma da Mônica, vendia dois, três milhões de exemplares por mês antes dessa virada que deu com a chegada do chip, com o computador , a internet… enfim, essa modificação violenta. A rapidez das coisas agora é muito grande, o “2001” é um filme anacrônico. Sabe aquele computador da nave do filme do Kubrick que fica fazendo barulhos “brarrrrrr”, é uma merda perto do seu lap top. O lap top desse tamazinho dá de dez a zero naquele do Kubrick. Então mudou muito, você dá dinheiro pro menino comprar história em quadrinhos e ele não vai comprar. Ele vai comprar tudo, vídeo game e componentes pro computador.

Como o livro se insere nessa cultura?
O livro da forma como sempre foi conhecido é um produto de resistência, a humanidade vai demorar muito pra poder abrir mão do livro, quer dizer, não é coisa que eu espero somente pra nossa geração, os bisnetos de vocês ainda vão estar lendo. A mensagem do livro é um convite para a reflexão que o homem e grande parte da humanidade sempre vão precisar. Nem toda a humanidade vai aceitar a oposição dessa porra aqui (se refere a Fnac, local onde foi realizada a entrevista). Isso aqui (Fnac) não é uma coisa brasileira, não é o resultado de uma vivência brasileira, é o resultado de uma globalização, de comercialização. Já tem vinte anos que os EUA são assim, tem uma cidade aqui, uma praça igual a essa e as cidades são dormitórios. Você vê uma cidade americana de interior e de noite ela apaga, tem as praças de alimentação, os estacionamentos para cem mil carros. Você vê estes filmezinhos americanos horrorosos, uma turma da cidade brigando com a outra, e eles vão brigar aonde? No supermercado, lá no shopping, então isso aqui não é uma conseqüência cultural brasileira. Está mudando a relação dos homens com os objetos que a minha geração tinha. E os objetos mais resistentes desse tempo são os livros e é disso que eu quero falar. Apesar de você ser conduzido a aceitar tudo feito como o que está acontecendo agora, de o cara botar tudo na sua mão pronto, e você não ter mais o que pensar, nem o que refletir, nem o que escolher mais, ainda tem uma parte da humanidade que vai conduzir o mundo e essa parte quer refletir e vocês vão fazer parte dela, porque vocês não foram engolidos ainda. Vocês têm gosto, têm escolha, têm critério, vocês são uma minoria arrasadora. Mas mesmo sendo uma minoria arrasadora, vai ser um contingente muito grande, ou seja, não é mais massa.

E a cultura de massa?
A cultura de massa que o pessoal fala aí que é a história em quadrinhos, essa cultura de massa, foi toda pra televisão, que massifica ainda mais e está cada vez mais baixando o nível. Quer dizer, como as pessoas tendem à preguiça, à passividade, a TV dá cada vez menos coisas para as pessoas refletirem, porque é melhor ter um idiota que aceita tudo, que compra tudo. Verifiquem quantos coraçõezinhos há com os braços abertos daquela menina do Big Brother (Thaís) que leva o coraçãozinho quando vai pro confessionário. Aquilo deve estar vendendo adoidado, deve vender mais que qualquer livro meu. Só porque a menina fica com o coraçãozinho que, aliás, é de um mau gosto insuportável, pior do que beijo no coração. Toda vez que vem alguém e manda um beijo no coração, eu mando tomar no cu, vai pra puta que o pariu, porra, beijo no coração é o cacete (inconformado com o coraçãozinho da Thaís)! Eu tenho uma antipatia com beijo no coração. (Muito irritado)

Ziraldo, você foi um dos primeiros a criar uma revista com personagens brasileiros…
Naquela época o “Pererê” vendia 150 mil exemplares, foi uma coisa fantástica e agora o menino não compra mais… Ele compra o mangá, porque a televisão enfia aquela imagem atordoante na cabeça dele e ele vai lá e compra. A literatura, o desenho em quadrinhos e o livro são formas de resistência, senão todo mundo vai virar autômato, ninguém vai escolher mais nada, não tem nem música boa mais.

De certa forma você acabou sendo engolindo por essa cultura de massa. O Menino Maluquinho, por exemplo, fez muito sucesso, aparece na TV, os seus livros vendem bastante também…
Eu começo a produzir num momento de grandes transformações, a vida me colocou num momento em que o sujeito que cria está passando de uma fase mecânica pra uma fase eletrônica. Eu ainda escrevo numa máquina de escrever que é mecânica. É claro que eu não ignoro isso, eu tenho tudo, mas são meus assessores que mexem com os e-mails, que fazem o site. E eu faço isso porque senão eu ia virar um dinossauro, então eu tenho que pegar o barco porque senão eu acabo morrendo afogado.

Você acha que isso acaba com as formas de resistência, ou tem que pegar o que é bom mesmo, aquela coisa antropofágica?
O fato de haver pouco espaço pra esse tipo de trabalho que eu faço em relação à menina do coraçãozinho do Big Brother não vai desestimular vocês, nem fazer com que abandonem seus ideais. Vocês fazem parte dessa humanidade que está acordada e por um milagre qualquer nasce inteligente, apurada, atenta. A gente tem que continuar criando, escrevendo, fazendo história em quadrinhos, porque senão a gente acaba sendo empurrado também. Tem uma ficção científica chamada “Fahrenheit” na qual fala que no futuro eles proibiram o livro. Então era uma subversão terrível, porque o livro levaria ao fruto do bem e do mal. Os subversivos liam, decoravam os livros e se reuniam com o camarada pra passar “O Inferno de Dante”, “Dom Quixote”…

A propaganda da leitura através da televisão e de outros meios não acaba se chocando por ser uma questão mais estrutural, de base?
É claro que esse é só um pedacinho do trabalho. A escola é o caminho, tem que modernizar a escola, atualizar a cabeça dos professores, tem que levar os pais das crianças do ensino fundamental pra escola. Um grande trabalho que precisa ser feito é com os próprios pais, porque como eles não leram muito, eles não têm idéia da importância da leitura. Os pais têm a visão de que livro só se compra se for pra nota, “ah, se não for pra nota eu não vou comprar”. Quer dizer, a propaganda na TV é apenas uma parte do trabalhão, né? O trabalhão é a política do governo, botar políticas educacionais, botar mais bibliotecas, trabalhos junto às famílias.

E como você vê o ensino público no Brasil hoje?
O ensino fundamental melhorou muito, muito mesmo. Há uma consciência hoje de que a escola tem que se modernizar, tem que mudar a maneira de ensinar, a relação do professor com o aluno. Precisa acabar com esse negócio de prova, com aquela coisa acadêmica. Entope o menino de matéria, chega no final do ano, dá aquela prova para ele e, se não for bem, dá aquela bomba. Isso é uma coisa ridícula, uma falta de respeito com o ser humano. A escola ideal é a escola de avaliação contínua, você tem que fazer prova toda semana, todo mês. A escola tem que acompanhar você desde o ensino fundamental. E já há uma má compreensão quanto a isso. Tem gente falando “ah, não tem prova mais, então passa todo mundo”. Não é isso. Eu vou lá no nordeste e tem o menino de quarto ano que não sabe ler. Mas porque ele não sabe ler? “Ué, tem que passar de qualquer jeito, então eu estou passando ele”. Tem que pegar a burra da professora e falar pra ela: “Olha, minha senhora, não é pra passar o menino de ano, é pra avaliar o menino continuamente e dizer que ele não está bem”.

A proposta de não reprovar alunos não seria uma forma de passar uma imagem falsa de que 97% dos brasileiros são alfabetizados, sendo que uma parte dessas pessoas nem sabe ler?
Na verdade, não é bem assim. No nordeste tem, de fato, crianças no quarto ano que não sabem nem ler mesmo, mas é muito grande o país e até você arrumar essas coisas vai demorar um pouco. Há muito esforço, há muita gente trabalhando, mas a maioria das pessoas está condicionada para comprar tudo feito, pra ninguém criar nada. É muito mais cômodo, muito menos responsabilidade, ficar só cumprindo ordens. Eu, que viajo de estado em estado, de escola em escola, e conheço a maioria dos secretários de educação deste país, posso dizer que há um esforço. Agora o pessoal está achando que só pode trabalhar com a televisão, ensinar através de folhetos. Tem que ser olho no olho, tem que trabalhar com monitor, mandar o sujeito ir lá no lugar, no raio que o parta, ensinar, igual os missionários faziam. Tem que ter gente fazendo, tem que ter os profissionais atualizados pra ir lá pro Amazonas e trabalhar a professora, o prefeito e a comunidade. Esse é o grande caminho e o futuro da educação brasileira.

E os métodos adotados pelo MEC, como o Provão, para avaliar as universidades?
Eu acho que tem que resolver o problema da escola fundamental, básica, porque se resolve o ensino fundamental, daqui quatro anos a gente resolve o ensino médio e, daqui a oito anos, ele resolve o mau ensino na universidade. Isso vai acontecendo automaticamente. Se você sai bem formado, lendo pra cacete no primário, a sua geração vai chegar lá em cima melhor, então já vai facilitar. É evidente que você não vai abandonar a universidade, nem o ensino médio e só ficar trabalhando com o ensino fundamental. Acontece que no Brasil tem mais escola de medicina do que a Europa inteira, todo dia abre uma escola de medicina, tem até uma cidade de merda lá no fim do mundo que tem escola de medicina. Na Alemanha quando acabou a guerra, restabeleceram as escolas de medicinas e até hoje as escolas de medicinas lá são as mesmas, não tem nem uma escola de medicina nova. Isso não é curso de informática pra ficar abrindo assim. Conclusão: o que tem de faculdade fajuta nesse país é uma loucura. Por isso que o governo faz essa avaliação e a qualidade de ensino melhorou, só que tem muitas pessoas dentro da universidade que contestaram o Provão, fizeram o boicote e tal… Pára com isso, né? Você quer o diploma ou quer aprender? Então como que o governo vai saber se a escola está enrolando? O Provão é o caminho, assim como o Enem também é.

Aproveitando as vésperas de eleições, como você vê o cenário político atual?
Baixaram o nível demais, né? Porque eles estão com medo de perder os compromissos neoliberais do governo brasileiro, que é muito grande. Os bancos no Brasil estão desavergonhados, ninguém quer perder o que tem. Então, inventaram o risco que é pro Lula não ganhar a eleição. E a imprensa não quer mudar nada disso. Vocês viram como aumentou o número de milionários da América Latina? O Brasil tem 250 mil milionários e mais de 50 milhões passando fome. Então, se a gente pudesse conscientizar o povo pra que eles pudessem votar pra mudar… Eu vou votar contra isso tudo, vou votar no Lula e acho que todo mundo tem que votar no Lula. Mas eu acho difícil o Lula ganhar, porque é muito dinheiro, é muita baixaria…

Mas o PT também tem dinheiro…
Tem, mas é diferente. Não é o mesmo nível, porque a proposta do PT é diferente, é uma proposta de igualdade social. O Brasil há 500 anos foi entregue aos donatários das capitanias hereditárias e até hoje a gente não conseguiu tomar o país deles. É a mesma gente que está mandando no país. Porque o nordeste está assim? Este nordeste devia ser o celeiro do mundo, cara! O que o imperador do Brasil enterrou de dinheiro no nordeste é uma loucura, o que todos os governos enterraram de dinheiro no nordeste, dali saíram fortunas incríveis. Então, vamos mudar, se não der certo será só quatro anos ou então a gente pode votar o impeachment daqui a dois anos. Vamos experimentar, por que botar os mesmos caras todos os dias? Vamos experimentar um caminho novo aí, se não der certo recomeçamos de novo.

Como está “O Pasquim 21”, vendendo bem?
Tá vendendo menos do que eu queria, mas também eu peguei essa Copa do Mundo no meio, que é uma merda, não vende nada. Agora eu entrevistei o Armínio Fraga, uma entrevista importante e eu pensei que fosse vender 100 mil exemplares e tá só vendendo 30 a 40 mil…

O “Pasquim” antigo fazia críticas diretas ao governo. Naquela época as críticas tinham um peso que de certa forma hoje elas não tem mais.
A juventude naquela época tinha como modo de expressão a luta pela liberdade. Então o chique hoje é você fazer surf, sei lá, você ser clubber ou você ser punk, já naquela época tinha uma galera que ia pro Maracanãzinho cantar: “Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais braços dados ou não…”, então o “Pasquim” era a publicação dessa galera, aí vendia pra caralho. E tinha a censura, você podia ser preso e tal… Hoje o negócio mudou muito, você pode xingar a mãe do presidente que não acontece nada. Então, você não tem aquele sabor de novidade que tinha. Só que agora se você tirar o “Pasquim” da banca você não encontra mais nada pra você ler, é tudo igual, é uma pasteurização. A “Isto É” elogia o Quércia, a “Veja” elogia o FHC, a “Época” fica meio que em cima do muro. Quando o governo demora pra liberar o dinheiro do BNDES pra Globo, ela começa a elogiar o Lula, aí o governo libera o dinheiro pra eles não elogiarem mais o Lula; quer dizer, é tudo jogada. Tem espaço para um jornal igual o “Pasquim” e eu insisto até o pessoal descobrir, e vai demorar, mas o pessoal vai descobrir.

Por que o Ivan Lessa, o Jaguar, o Millôr e o pessoal antigo não entrou agora?
Ah, porque tá todo mundo muito velho, tenha santa paciência. É aquela coisa: “Ahh, não vou, o Pasquim morreu.” Morreu pra você, para mim continua vivo dentro do meu coração. Então, o titulo não era do Jaguar, nunca foi, mas aí eu encontrei um grupo e consegui comprar o título, porque tinha o dedo jurídico de título, quer dizer, o Pasquim é tanto meu como do Jaguar, a gente foi preso junto, não é mais do Jaguar do que meu. O Jaguar não quis vir, que fique lá, ué… Ele não quer, então eu quero.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 3, julho de 2002)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s