Vitachi, memória de Barão

Vitachi, memória viva de Barão
No bar do Vitachi, o cliente pega o seu próprio salgado e, às vezes, faz até o troco; Vitachi garante que mesmo assim o freguês volta

Os novos clientes estranham um pouco o modo peculiar de atender de Vitachi, mas logo se acostumam. Se não se acostumarem também, paciência.  Já os clientes antigos chegam e abrem direto a estufa onde ficam os salgados. Entram e avisam: “Vitachi, tô pegando um salgado”. Ao que ele retruca, num tom meio de saco cheio: “Tá, pegaí e não reclama”. “Aqui é o único lugar do mundo onde você trata o cliente assim e ele ainda volta”, se diverte.

Pros mais chegados, sobra até fazer o troco.
– Vitachi, quanto deu? Só tenho uma nota de dez.
– Entraí, abre a gaveta e faz o troco você mesmo, oras.

Ele sequer põe o olho na gaveta cheia de dinheiro pra conferir se o cliente fez o troco certo.

Vitachi pode parecer curto e grosso num primeiro contato (“eu sou meio duro de lidar mesmo”), mas aos poucos vai cedendo, conversando mais e, se você der brecha, daqui a pouco ele é capaz de te contar algumas piadas sujas.

“Vitachi”, disse um, “vou comer um salgado”. Vitachi olhou de soslaio e disse: “Você não comendo eu, pode comer o que quiser aqui, rapaz”.

Quase sempre de jaleco azul, invariavelmente molhado e usando uma luva branca velha, Álvaro Antônio Vitachi, 65, prepara vitaminas e vende salgados num cubículo no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, há quase 20 anos.

A vitamina “ponte pretana” sai por R$ 2,50 e leva açaí, mamão, laranja e abacaxi. A tradicional turbinada leva leite ou suco de laranja, banana, mel, aveia, pó de guaraná e açaí – e isso por módicos R$ 3. O lugar é pequeno, mas bastante movimentado. Devem passar por dia ali umas 200 ou 300 pessoas, desde a hora que abre, às sete da manhã, até a hora do fechamento, às 7 da noite.

Os preços são baixos – até “demais”, reclamam alguns. Um salgado, por exemplo, custa R$ 1 – e não pense que é de má qualidade. Não é. O refrigerante de lata sai por R$ 1,50 – mas, se você for cliente antigo, é capaz de pagar um real. No Vitachi é assim. Ele me disse que vende cerca de 350 salgados por dia. Um número e tanto.

Em uma parede do lugar encontram-se fotos antigas de Barão Geraldo – há até um documento do pai, de “cocheiro urbano”, a carteira de motorista da época. Na parede em frente, um relógio, com um adesivo da Ponte Preta, seu time de coração. Dona Conceição, uma lendária e mitológica moradora do distrito, de uns 70 e poucos anos, que vaga pelo distrito ou com seus cachorros ou vendendo panos de prato, passa todo santo dia no final da tarde para tomar uma vitamina. Cortesia do Vitachi.

Vitachi nasceu em 1942, pelos dotes da parteira dona Cristina, quando Barão Geraldo ainda nem era distrito, apenas um bairro de Campinas. Vitachi seria um baronense, então? “Campineiro! Quem fala que é baronense está sendo enganacioso. Eu sou campineiro, e não baronense. Barão nunca vai virar cidade, pode escrever aí. Alguns querem transformar Barão em cidade pra depois conseguirem cargos políticos. É muito mais fácil se eleger vereador por Barão do que por Campinas.”

“Um dia um conhecido meu veio aqui falar disso. Eu disse na cara dele que era contra. O cidadão nunca mais olhou na minha cara de volta. Problema dele.”
E prossegue falando sobre o assunto, animado. “E olha, se Barão um dia fosse independente de Campinas, e eu me candidatasse a vereador, eu ganhava com folga de todo mundo aí. E fácil, viu?”

A festa do Boi Falô é outro assunto que aguça sua vontade de falar. “Se eu fosse subprefeito, eu acabava com esse negócio de festa do Boi Falô, porque isso foi uma tradição inventada por políticos, pra ganhar votos. Antes, até os padres eram contra fazer a festa na sexta-feira santa. Hoje, eles vão lá dar a benção, até.”

Essa tradição começou por causa de um escravo chamado Toninho, que trabalhava na fazenda do Barão Geraldo de Rezende. Conta-se que no ano de 1888, em uma sexta-feira santa, o capataz ordenou ao escravo que fosse trabalhar. O escravo acatou a decisão e foi ao trabalho – mas, algum tempo depois, voltou dizendo que “o boi falô que hoje não é dia de trabalho”. Por algum tempo Barão foi conhecido como “a terra do Boi Falô”.

Conhecedor da história informal do distrito, Vitachi se lembra do dia em que Barão começou a mudar profundamente, com a construção da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Era 5 de outubro de 1966. Neste dia ensolarado, o então presidente do país, Castelo Branco, veio colocar a pedra fundamental da Unicamp. Vitachi caçava codorna com sua espingarda calibre doze e uma cachorra. “Prendi a cachorra num poste e fui lá ver o Castelo Branco. Barão se transformou naquele dia. Foi o primeiro passo pra virar o que é hoje”.

Casado há 41 anos, Vitachi tem dois filhos – “um menino”, de 35 anos, “que mexe com engenharia eletrônica” e “uma menina”, de 41, “que trabalha em um centro cirúrgico”. Seu pai, Antônio José Vitachi, era sitiante e tinha uma beneficiadora de arroz.

Quando criança, Vitachi não gostava de freqüentar escolas. Era do tipo bagunceiro e briguento. Foi expulso de quatro escolas por mau comportamento. “Eu tinha fobia de estudar, não conseguia ficar dentro de sala de aula. Ainda por cima, gostava de bagunça.”

Ele recorda:
– Eu fui expulso de quatro escolas, mas sou sincero e honesto na minha vida. Agora, tem político que é formado e doutorado e rouba do povo.

E Vitachi hoje pensa em parar de trabalhar? “Eu nasci para trabalhar. Se eu me aposentar eu morro.” Um amigo seu de longa data confirma: “O Vitachi vai fazer igual ao Papa. Vai trabalhar até o último momento de vida”.

Publicada originalmente na revista Semana 3 (ed. 29, março de 2005)

3 respostas para Vitachi, memória de Barão

  1. Pingback: Sete anos atrás, Semana 3 era lançado « Carlos Eduardo Moura / blog

  2. Que bom encontrar material de registro dessa história e desse sujeito que é o Vitachi.
    Vida longa ao Vitachi! E visibilidade para ele nunca é demais…

  3. jacyro disse:

    ei bom ViTACHI, esse é dos meus, sincero, fala : abobrinha, beringela, repolho, mas não fala
    mentira, esse é o bom VITACHI, camarada macho e mais ainda honesto, abraços do jacyro bertozzo ( o Boanerges de Barão ). até.

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