“Filme”

Desvendando Hollywood
Série de reportagens de Lillian Ross, publicada em 1952 na revista ‘New Yorker’, desnuda a indústria cinematográfica de Hollywood

Narrado como ficção, o livro “Filme” (Picture, em inglês) conta os bastidores da produção do filme “A glória de um covarde”, do cineasta John Huston, lançado pela Metro-Goldwyn-Mayer em 1951 – o filme é uma adaptação do romance “O emblema rubro da coragem”, de Stephen Crane, sobre a Guerra Civil americana.

Série de reportagens da jornalista Lillian Ross, publicadas em 1952 sob o título de “Produção número 1512” em cinco edições da revista “New Yorker”, “Filme” compõe um quadro (algo tenebroso) da indústria cinematográfica de Hollywood.

Ao ser convidada por John Huston para acompanhar a produção de “A glória de um covarde”, Ross, então com 25 anos, tinha em mente escrever apenas um perfil do diretor. No entanto, no desenrolar da história, a jornalista viu que tinha um excelente material e decidiu preparar um texto romanceado – durante os quase dois anos de apuração, ela escreveu mais de 90 mil palavras.

Em uma das cartas que escreveu para Willian Shawn, o editor da revista na época, ela dizia: “Se a história vier a ser o que penso que ela é, teremos quase um livro, um tipo de romance, pela maneira como os personagens se desenvolvem e pela variedade de relações que existe entre eles. Não sei se esse tipo de coisa já foi realizado antes, mas não vejo por que eu não deveria tentar uma história factual em forma de romance, ou talvez um romance factual.”

Com um talento grandioso de observação, Ross narra como um grande filme é mutilado, cortado e alterado para ficar mais próximo ao gosto do público médio. O livro mostra detalhadamente todos os passos da produção da película de Huston: as reuniões iniciais do diretor e do produtor, a construção do roteiro, a definição do orçamento, a recusa inicial de L. B. Mayer, o todo-poderoso da MGM, as filmagens, as pré-estréias… e a sucessão de mudanças pelas quais o filme teve que passar para se tornar mais palatável. É aí onde o livro vai mais fundo na realidade hollywoodiana.

Embora o filme tivesse obtido grande aceitação por parte de amigos de Huston e de gente da própria indústria cinematográfica, “A glória de um covarde” não havia empolgado o público presente nas pré-estréias, sondado através de cartões de pesquisa.

A partir daí, as mudanças começam. Iam desde a inserção de um narrador, dizendo, por exemplo, que o filme era a adaptação de um clássico (os produtores sustentavam que era necessário dizer isso aos espectadores), à exclusão de cenas “fortes” e uma abertura “menos confusa”. Disse um dos donos da produtora: “É um filme problemático. Obtém ruma reação ruim do público. A ausência total de glamour sempre prejudica um filme.”

O que a produtora MGM queria, no final, era um filme comercial, que fizesse sucesso e rendesse boa bilheteria. Para isso, “algumas exigências básicas” teriam que ser cumpridas. O gosto do público era determinante, o juiz final – aliás, como costuma ser hoje nas grandes e médias produções de Hollywood.

Uma das estrelas do new journalism
Lillian Ross foi uma das pioneiras do “new journalism” – gênero que usa técnicas da ficção para contar fatos reais -, ao lado de jornalistas como Gay Talese, Truman Capote, Tom Wolfe e John Hersey.

“Filme” foi o primeiro trabalho publicado em forma de ficção (há discordâncias, mas Ross gosta de afirmar isso sempre que dá entrevistas sobre o livro). Truman Capote, antes de escrever “A Sangue Frio”, talvez a grande obra-prima do gênero “romance de não-ficção”, questionou longamente Ross sobre seu modo de escrever – a jornalista era seu principal modelo.

Um dos lemas da jornalista, aliás, era escrever fatos evitando interpretações e julgamentos, como escreve no prefácio de “Reporting”: “Evite a interpretação, a análise, passar os seus julgamentos dizendo ao leitor o que ele deveria pensar. Restrinja-se ao que pode ser observado e reportado. Chegue o mais perto possível da verdade e deixe o leitor fazer a cabeça por si mesmo.”

A Companhia das Letras vem lançando no mercado brasileiro, dentro da coleção Jornalismo Literário, inúmeros títulos que deram fama ao novo jornalismo, como “Hiroshima” (John Hersey), “Fama e Anonimato” (Gay Talese), “A milésima segunda noite da avenida Paulista” (Joel Silveira), “Radical Chique e o Novo Jornalismo” (Tom Wolfe), “A Sangue Frio” (Truman Capote) e “O segredo de Joe Gould” (Joseph Mitchell).

Ross, hoje aos 78 anos, ainda trabalha na “New Yorker”, uma das revistas mais prestigiadas do mundo, escrevendo para sua mais famosa seção, a “Talk of the town”. Foi lá na revista que ela escreveu o perfil do escritor Ernest Hemingway, colocado por muitos entre os melhores textos jornalísticos já publicados.

“Filme”, de Lillian Ross
312 páginas, tradução de Pedro Maia Soares, R$ 47,00, Cia. Das Letras

Janeiro de 2006.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s