“Nação Zumbi”

Em busca do beat perfeito
Sem Chico Science, Nação Zumbi tenta buscar o seu próprio som

Não é fácil para uma banda perder seu líder no auge do prestígio. Ainda mais um cara carismático, como Chico Science era. Depois da morte do cantor, em um acidente de carro em 97, a Nação Zumbi, ponta de lança do movimento mangue beat, deu um tempo – precisava descansar e voltar com fôlego novo. Em 2000, com os cartuchos recarregados, voltaram com “Rádio S.amb.A” (Ybrazil?), o disco que arrancou as tripas do samba, cheio de colagens sonoras bem sacadas e telecotecos jungle. Com Jorge Du Peixe nos vocais, o disco trazia momentos pesados (como em “Antromangue/Brasília” e “Jornal da Morte”), mas também fazia reverencia ao rap velha escola (“Zumbi x Zulu”, com participação de Afrika Bambaataa) e ao dub.

Segundo CD sem Chico Science, “Nação Zumbi”, lançado agora pela Trama (que vai distribuir também o CD passado), aposta no peso. A banda mantém o velho lema: fincar a parabólica no mangue e enviar esporros sonoros para o resto do mundo. É aquela história: pegar influências e reprocessá-las, cuspir de volta. O que sempre foi o espírito do mangue beat.

A fusão de hip hop, rock, funk, dub e maracatu guiada por Jorge Du Peixe (vocais), Lúcio Maia (guitarra), Alexandre Dengue (baixo), Toca Ogam (percussão), Gilmar Bolla 8 (percussão) e Pupilo (bateria) é co-produzida pelo núcleo paulista Instituto (último dos Racionais) e Arto Lindsay e mixada por Scott Hard, que tem participação forte no hip hop underground dos EUA e já produziu artistas como Björk, Wu-Tang Clan e Morcheeba.

O novo disco deixa claro como a Nação conseguiu superar a morte do líder, fazendo um som global, mesmo com referências locais. Os tambores, que antes eram do coração do grupo, foram deixados um pouco de lado, sendo apenas mais um instrumento de percussão. “Nação Zumbi” nada mais é do que a banda curtindo e fazendo o som que querem, depois de 10 anos juntos. A banda vem mais coesa, com maior unidade (embora isso não seja coisa que se deva pedir a uma banda como a Nação), deixando as colagens do disco passado um pouco de lado.

Fazendo referência a Gil Scott-Heron (“The Revolution Will Not Be Televised”), um dos precursores do rap, “Propaganda” questiona “Como pode a propaganda ser a alma do negócio/ Se esse negócio que engana não tem alma (…)/ A alma do negócio é você”, e no refrão avisa: “Corro e lanço um vírus no ar/ Sua propaganda não vai me enganar”.

“Amnesia Express”, cantada em inglês, tem levada hip hop, e a letra fala de uma amnésia geral que existe na sociedade. De fazer balançar a cabeça junto com a música, cheia de ecos e efeitos fantasmagóricos.

“Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada” é o ponto alto do disco. Com uma abertura heavy-metal, resvala no grunge e traz guitarras pesadas durante toda a música. “Levando o baque do trovão/ Sempre certo na contramão/ Carrego pronde vou/ O peso do meu som”, diz a letra. Faz a ponte entre Recife e Nova York, com “My Word Weights a Ton”, do Public Enemy.

O disco traz ainda a participação de Dona Cila do Coco, em “Caldo de Cana” e Nina Miranda, em “O Fogo Anda Comigo”. “Prato de Flores” é a mais leve do disco e fala de amor (“Eu vou lhe dar/ Um prato de flores/ E no seu ventre/ Vou fazer o meu jardim”).

Se a perda de Chico deixou a banda menos carismática, ao mesmo tempo a deixou mais unida e até menos previsível. A banda aposta e ousa mais, fugindo dos clichês. Usa a eletrônica, o funk, o hip hop, o rock; aproxima extremos (vai do terreiro ao rock moderno), usa a tecnologia a seu favor – isso tudo sem posarem de modernóides.

“Tempo Amarelo” fecha o cd do mesmo jeito que começou: com classe.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 6, outubro de 2002)

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