“Planolândia”

“Planolândia” critica sociedade vitoriano do século XIX

Imagine um mundo plano onde os habitantes são figuras geométricas: triângulos, quadrados, pentágonos, círculos. Nesse mundo, o número de lados equivale ao prestígio social. As classes mais baixas são triângulos. Os profissionais, os quadrados. A nobreza é composta por pentágonos e hexágonos. À nobreza, cabe o título de polígonos. Os círculos são os altos sacerdotes. As mulheres são apenas linhas, totalmente desprovidas de capacidade mental, sem discernimento e quase nenhuma memória, mas às vezes mortais, podendo furar um incauto habitante, já que são vistas apenas como um ponto (muitas vezes invisível).

Este é o mundo de “Planolândia – Um romance de muitas dimensões”, originalmente publicado em 1884, e agora lançado no Brasil pela Editora Conrad. Seu autor, o inglês Edwin A. Abbott, foi educador, teólogo, estudioso de matemática e leitor de Shakespeare. Daí a mistura de geometria a críticas da sociedade.

Na cidade de Planolândia, existia uma lei da natureza que dizia: criança do sexo masculino tem um lado a mais que o pai. Então, um filho de um quadrado é um pentágono. Mas essa lei não se aplicava aos soldados nem aos trabalhadores. Os mais pobres não podiam subir de vida, se subiam, a sua ascensão era uma forma de abrandar revoltas. Crítica à sociedade estratificada?

Outro mecanismo de compensação interessante era que quando se aumentava a inteligência nas classes trabalhadoras, aumentava-se o número de lados, diminuindo, assim, o poder de “furar” das figuras. A capacidade de um triângulo de lados diferentes de furar era muito maior do que, por exemplo, a de um quadrado.

O livro, lançado durante um período de grande discussão sobre outras dimensões, deve ser lido tomando-se em conta o seu contexto. Publicado em 1884 na Inglaterra, “Planolândia” é uma crítica sobre a sociedade vitoriana da época, estagnada, hipócrita, sexista, cheia de fanatismos e preconceitos. O livro é cheio de ironias e analogias entre o mundo do narrador (o Quadrado), Planolândia, e a sociedade inglesa. Em Planolândia, as figuras irregulares eram exterminadas assim que nasciam. Na Inglaterra, os aleijados eram mortos. A irregularidade significava uma combinação de conduta imoral e criminosa.

TRECHO:
“Coloque uma agulha sobre uma mesa. Então, com seus olhos no nível da mesa, olhe para a agulha de lado, e você poderá ver toda sua extensão. Mas, se olhar para ela a prumo, você só verá um ponto; ela ficará praticamente invisível. E o mesmo se dá com nossas mulheres. Quando uma delas está de lado para nós, vemos uma linha reta. Quando a ponta que contém seu olho ou boca – pois entre nós esses dois órgãos são idênticos – é a parte que está voltada para nossos olhos, aí só vemos um ponto muito brilhante. Mas, quando é o dorso que está voltado para nós, aí – por ser apenas um pouco brilhante e, na verdade, quase tão esmaecida quanto um objeto inanimado – sua extremidade traseira desempenha um papel de algo como um manto de invisibilidade.”

“Planolândia – Um romance de muitas dimensões”
Autor: Edwin A. Abbott, Ed. Conrad, 126 páginas, R$ 24,00

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 5, setembro de 2002)

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