“Querido Poeta”

Livro traz cartas enviadas e recebidas por Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes, além de grande poeta, foi uma pessoa muito efusiva e carinhosa. Viveu a vida sempre cercado de bons amigos e teve várias mulheres “definitivas” (foram nove casamentos). Foi sempre visceral, tanto em sua poesia, como na vida pessoal. Um apaixonado. Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez: “Foi o único de nós que teve a vida de poeta”.

“Querido Poeta – Correspondência de Vinicius de Moraes” vem pra mostrar um outro lado da vida do poetinha, o seu cotidiano: suas preocupações com política, sua atribulada vida financeira, seus problemas como diplomata do Brasil no exterior, sua vida amorosa etc. O livro, organizado pelo jornalista Ruy Castro, traz mais de 200 cartas, cronologicamente ordenadas, enviadas e recebidas por Vinicius entre 1932 e 1980, aos 67 anos, já perto de sua morte, nesse mesmo ano.

Entre os correspondentes estão a família, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e Portinari. As primeiras cartas são de 1932, escrita por Vinicius enquanto passava alguns dias num repouso em Itatiaia, interior do Rio. Aos 19 anos, o texto já mostrava personalidade. Numa carta ao amigo Lucio Cardoso, em 36, Vinicius dispara: “Evidentemente é preciso fazer qualquer coisa contra essa lava de titica nortista que emburreceu todo mundo de repente. Não se salva mais nada. A não ser o Amando Fontes e o Graciliano Ramos (apenas ‘São Bernardo’…), o próprio Zé Américo arrebenta com ‘A bagaceira’ com essas duas patadas de cretino louco. Essa outra gente, de Jorges Amados, Clovis Amorins, Josés Lins do Regos, para a puta que os pariu!”

Em 1938, Vinicius vai para Oxford, estudar língua e literatura inglesas. Em carta à mãe, ele diz: “A Europa está um ambiente tão pesado que não creio me seja possível estudar e passar dois anos numa universidade assim”.

Em 1940, ele volta ao Rio e começa sua carreira como crítico de cinema. Em 46, vai para os EUA, como vice-cônsul do Brasil, ficando lá por quase cinco anos. Mas não gosta nem um pouco: “Uma gente muito burra e self-satisfied, se achando o supra-sumo. Com exceção de certas facções democráticas, (…), o resto é de se jogar na latrina”, diz a Manuel Bandeira. “Se você critica, eles se fecham. Não admitem que não se ache isso aqui o paraíso”.

É no final dessa década que Vinicius passa a defender a política na poesia. “Os tempos mudaram – que é que se vai fazer? Fazer poesia como fazem Eliot, Auden, Pound – dentro dos ‘caminhos da poesia’? Ahn, ahn… Me parece fugir, voltar a cara, não querer se amolar”, diz ao diplomata Lauro Escorel.

A partir dos anos 60, é quando Vinicius inicia seu namoro com a música popular brasileira, se aproximando de Tom Jobim e Toquinho, e fazendo parte da bossa nova. Nos anos 70, Vinicius vai morar em Itapoã, na Bahia, e vira quase um hippie. Em uma carta para Chico Buarque, ele quer fazer alterações da letra de “Valsinha” e chamá-la “Valsa Hippie”. Chico ganha a “disputa”.

Vinicius torna-se também amigo de Jorge Amado. E, aos 62 anos, ainda vive a vida plenamente: “Agora: estou feliz pra caralho. Estou amando de novo. É feito um milagre, que eu já nem sei se mereço mais”, diz a Calazans Neto.

Só uma pequena ressalva: sente-se falta, vez ou outra, de uma contextualização entre as cartas. Um perfil maior de cada década (como é dividido o livro) talvez ajudasse.

“Querido Poeta – Correspondência de Vinicius de Moraes”
Ruy Castro (org.), Cia das Letras, 376 páginas, R$ 49,00

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 13, junho de 2003)

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